Staying Human
O episódio da Asuka: a mãe, a boneca e a mentira de que ela consegue viver sozinha - que um anjo em órbita resolve testar vasculhando a mente dela.
Passo metade da discussão entendendo a Asuka mais do que eu queria, porque orgulho que impede de pedir ajuda é assunto que eu conheço por dentro.
Primeira vez por aqui? Como o programa e esta temporada funcionam
Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.
Eu nunca tinha visto Evangelion. Daí resolvi que a primeira vez ia ser gravada.
Assisto um episódio e gravo na sequência. Sem roteiro, sem pesquisa e sem voltar atrás pra consertar palpite furado - e tem muito palpite furado aqui.
Acompanhe a série pelos olhos do ineditismo. Seja ao meu lado ou rindo da minha cara.
Ler a transcrição 4.939 palavras
Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.
Olá, Personas! Meu nome é Caio Corraini e estamos todos sendo trocados por uma boneca? Porque tá começando o Minha Primeira Vez. Hoje nós vamos discutir o episódio número 22 de Evangelion, Staying Human.
Ok? Eu sinto que eu sempre falo ok quando eu tô meio dividido em relação ao que eu tô sentindo no momento sobre o episódio. Mas vamos lá, vamos lá, porque esse episódio aconteceu algumas coisas bem interessantes, pra falar a verdade. Lembrando sempre, tentar ser um pouco mais descritivo do que o normal, pra que as pessoas que não estão assistindo o desenho atualmente possam acompanhar, tanto quanto quem acabou de assistir.
O episódio começa com a Asuka falando com o Kaji, isso quando eles ainda estão na Alemanha. Obviamente, ela tá se declarando novamente pra ele e batendo na tecla de que ela não é uma criança,
e sim uma adulta. E é basicamente uma súplica por atenção dele. E o problema é que a Asuka se insinua de uma maneira romântica pro Kaji, e cara, ela é uma criança de 14 anos e ele é um adulto de quase 30. Então, levando em consideração essa diferença e essa disparidade de idade, é óbvio que é impossível ele olhar de qualquer outra maneira pra ela que não seja como: meu, você é uma criança, sabe, seja uma criança, se envolva com pessoas da sua idade. Até porque, se ele olhasse de qualquer outro jeito, seria crime. Mas então a Asuka basicamente está nesse jogo, pelo menos em relação ao Kaji. É uma batalha perdida.
A gente segue para um flashback da Asuka, finalmente mostrando um pouco da mãe dela. Porque, pelo que a gente sabe nesse momento,
a mãe da Asuka está com algum problema psicológico, tanto que ela tem uma boneca nos braços e ela acha que a filha é a boneca. A Asuka pequenininha está olhando essa situação através do vidro do quarto do hospital que a mãe está. Primeiro que eu não sei se em qualquer outra situação normal seria permitido a criança acompanhar uma mãe nessa situação. Principalmente porque nesse ponto eu não sei se a presença da Asuka iria proporcionar alguma coisa boa para aquela situação, e sim só um dano psicológico altíssimo para a Asuka. Que é uma coisa que a gente vê que acontece. E os médicos que estão discutindo sobre a mãe da Asuka, eles até mencionam que, querendo ou não, a gente faz bonecos pra serem próximos
à nossa imagem. Então é como se a gente estivesse também utilizando ali um boneco como uma representação humana, e que, se Deus existe, talvez a gente seja os bonecos dele, talvez a gente seja uma representação dele, só que obviamente sem o grau de complexidade, o grau divino que Deus tem. E eu acredito que tem algumas religiões que obviamente não vão nos chamar de boneco, mas seguem bastante essa linha. De que, no caso, eu tenho um pouco mais de conhecimento da religião cristã, muito do discurso é que nós somos feitos à imagem de Deus. Só que Deus é muito mais. Deus é um ser perfeito, onipotente, onipresente, todos aqueles oni lá. É o tudo, tudo, tudo. O 10, 10, 10, 10, 10, 10. E é interessante essa maneira com que
a mãe da Asuka, ela não vê mais diferenciação entre a boneca e a filha, no caso negando a filha, tanto que mais tarde no episódio a gente chega a situações extremas disso. E a maneira com que a Asuka, ela reage a tudo isso, é se enclausurando. É basicamente acreditando que ela pode viver sem ninguém, porque as pessoas que aparentemente até aquele momento fizeram parte da vida dela, que precisavam cuidar dela e tudo mais, acabaram não sendo capazes de fazer isso. O pai eu já não sei tanto, afinal de contas esse episódio não explora tanto a figura do pai, a não ser o fato de que ele casou-se novamente, e talvez isso, aos olhos da Asuka, pode também ter sido visto como um ato de traição e tudo mais. Mas a gente não tem muitos indícios de que
talvez seja isso. Do pai em si a gente não tem tanta informação, mas a relação da Asuka com a mãe parecia ser forte. Primeiro que a relação entre filhos e mãe, a relação maternal, ela tende a ser mais próxima, eu acredito, por conta de que, desde bebê, a alimentação do bebê é pele-pele, é uma coisa que a criança, obviamente, é gerada dentro da mãe. Então eu sinto que a relação, ela tende, eu acredito que biologicamente, a ser mais próxima, a ser mais forte. Porque tem até um Mamilos que eu editei há um bom tempo, não lembro qual foi, cara - porra, trocentos episódios que eu já editei - em que um pai fala que teve um momento ali nos primeiros meses do bebê que ele se sentia inútil, porque o bebê não dependia dele pra
nada, porque pra se alimentar era mãe, pra todas as outras coisas, pedia sempre a mãe, pedia sempre a mãe. Então eu sinto que isso é uma coisa meio que nossa como espécie, a capacidade que o ser humano tem de realmente se ligar dessa maneira mais forte com a mãe.
A Asuka, em todos os momentos, ela transforma muito a dor dela em ódio, tanto que depois tem a cena da Asuka segurando a cabeça da boneca na mão, sem chorar, no enterro da mãe, sabe? Isso, conforme o episódio vai se desenvolvendo, a gente vai vendo que a Asuka, ela transforma muito a dor dela em ódio. E é muito complicado, porque ao não tratar dos problemas psicológicos que ela tem - todos nós temos. Mas, no caso dela,
é uma coisa que, na minha opinião, é muito mais sério. A partir do momento que ela não trata desses problemas psicológicos, ela não tem munição pra lidar com nenhuma daquelas situações. E por isso que pra ela é tão complicado essa linha entre não querer depender de ninguém… E a partir do momento que as pessoas se aproximam ou tentam se envolver na vida dela, é muito rápido pra ela acabar detestando essas pessoas. Porque ela é muito orgulhosa e ela não quer a ajuda de ninguém. Ela não quer, porque ela sente que, do mesmo jeito que o Shinji, ele não consegue enxergar as pessoas se aproximando dele sem um, sei lá, uma motivação maior do que ele como ser, eu sinto que a Asuka não consegue ver as pessoas se aproximando dela, a não ser que elas estejam sentindo pena dela, a não ser que elas estejam olhando pra ela de cima pra baixo.
O que, porra, é muito triste, tipo, você acabar se enxergando dessa maneira.
Nisso a gente volta pros dias atuais, e a sincronização da Asuka vem caindo, vem caindo muito. A Misato tá discutindo com um funcionário e ele menciona pra ela que eles estão acelerando a construção de mais Evas em várias localidades do mundo. O funcionário diz que talvez sejam backups, já que um Evangelion foi destruído e os outros dois estão muito avariados, mas a Misato duvida. A Misato acredita que tem algo mais aí.
A Asuka vai tomar aquele trem, porque é o melhor modo de locomoção que existe em Tokyo 3. E ela vê o Shinji conversando com a Rei na estação.
E ela se pergunta como que ele passou um mês absorvido pelo Eva e já tá normal. E, nesse momento, eu dei um high five nela, porque, sim, como ele tá normal? Vocês podem lembrar, obviamente, da minha parte de expectativas de alguns episódios atrás. E uma das coisas que eu mais tava ansioso era, ok, o que vai mudar no Shinji? Porque precisa mudar alguma coisa. E não, nada mudou. Ele é o mesmo Shinji de sempre, igual, perfeito. Puta que o pariu, eu tô muito bravo com isso, cara. Sendo muito sincero, eu tô muito bravo com isso. Porra, como que uma pessoa vira uma sopa por um mês e volta como se fosse, tipo, tudo de… Ok, segue. Segue o barco, segue o barco.
E eu tô remoendo isso, e a Asuka tava remoendo o fato dela ter perdido, entre aspas, pra ele. Porque afinal de contas, na última vez que eles foram enfrentar o anjo,
ela foi derrotada assim, num piscar de olhos, e quem resolveu a situação realmente foi o Shinji, ou, no caso, a mãe do Shinji.
De qualquer forma, eles tão em casa, a Asuka recebe uma ligação da Alemanha, que diz ser da mãe dela. E ela conversa toda animada em alemão com a mulher. Quando ela desliga, o Shinji, ele se mostra com um pouco de inveja até dela, falando sobre: que legal, você fala com a sua família e tudo. Dá muita dó do Shinji, na verdade, nesse momento. E ela diz que não é a mãe verdadeira. Porque eu fiquei um pouco confuso, mas aí depois: ah, não é minha mãe verdadeira, no caso, a nova esposa do pai da Asuka.
Ela vai tomar banho e ela começa
a quase que, de um jeito, dá um pouco de medo, na verdade, porque ela começa, tipo: eu não vou tomar banho na mesma água que… que nojo… que o Shinji, a Misato. Eu não vou entrar na mesma banheira que o Shinji, a Misato. Eu não vou usar o mesmo vaso do Shinji, a Misato. Não vou respirar o mesmo ar que o Shinji, a Misato. Ela tá desenvolvendo esse ódio muito grande, que na real ela tá num estado psicológico muito ruim, em que ela odeia todo mundo e principalmente a si mesma, porque ela tá se sentindo extremamente incapaz. Ela tá se sentindo… O orgulho dela, novamente, o orgulho dela gigantesco - se fosse no Recife, seria o orgulho mais longo em linha reta do mundo.
Mas, tipo, pelo fato dela ter essa questão dela tentar ser tão autossuficiente, a partir do momento em que ela não consegue, em que ela falha nas coisas dela, tipo, fudeu, sabe? Então quer dizer que ela não tá conseguindo ser o que ela prometeu ser. Ela não tá conseguindo atingir o nível de proficiência, de autossuficiência que ela precisaria ter para conseguir, sim, ser feliz sem a ajuda de ninguém na vida, sabe? Então ela tá se sentindo, obviamente, extremamente frustrada. E, como eu já mencionei antes, ela transforma toda essa frustração em ódio ao redor e por ela. Tanto que a sincronização dela cai a ponto deles cogitarem ter que substituir ela.
Nesse momento tem uma cena que pra mim é ótima, ótima, porque ela causou exatamente, na minha opinião, qual era o objetivo do autor,
que é a cena dela com a Rei no elevador. É uma cena extremamente longa e extremamente desconfortável, porque elas ficam muito tempo dentro do elevador sem falar nada, os efeitos sonoros rolando e tudo mais, a música, e o desenho das duas parado, até num determinado momento que a Asuka dá um… Mas continua depois em silêncio. Tipo, é muito caralho, velho. Porque eu acho que todo mundo já passou por uma situação assim, desse silêncio desconfortável ao lado de uma pessoa que a gente tá numa relação não tão saudável, talvez. Mas a Rei quebra esse silêncio e diz que, se ela não se abrir, o Eva não vai se mover, que ele tem coração e ele percebe isso.
E a Asuka, obviamente, na defensivassa, ela diz que, se até a boneca tá com pena dela, que ela realmente chegou no fundo do poço. Ela só responde que, tipo: não, não sou boneca. Meio que: não, não sou. E a Asuka diz que sim, ela é a bonequinha do comandante, que, se ele pedir pra ela se matar, ela se mata. E a Rei responde que sim, e toma um pé na orelha. As pessoas adoram dar tapa uma na cara da outra nesse desenho.
É uma resposta que eu julgo correta e esperada da Rei, na verdade. Porque eu sinto que a questão da Rei nesse sentido dela falar, ah, não, se o comandante falar pra você se matar, você se mata, ela fala sim - e não é num sentido de: o que ele disser, eu faço, e sem pestanejar e tudo mais. Eu sinto que é: a Rei, ela confia tanto no comandante Ikari
que as atitudes do comandante Ikari, elas estão na direção correta para um bem maior, para o bem da humanidade. Que, se for requisitado pra ela que ela se sacrifique por ordem do comandante Ikari, ela faz isso sem pestanejar, porque ela confia no comandante Ikari. Tanto que é por isso que ela fica tão puta com o Shinji quando ele fala que não. Mas é muito esquisito, principalmente porque a Rei, ela fala de um jeito que, e responde de um jeito, que é muito complicado numa situação normal. Em uma pessoa que tem um vocabulário mais extenso do que a Rei aparenta ter nesse momento, a pessoa falaria: ah, se o comandante mandasse, se fosse a minha missão, sim. Pra não parecer de novo a existência da pessoa tão perecível como a Rei sempre faz parecer a dela. O que é horrível.
Nisso
aparece um novo anjo. Ele tá em órbita, sem se aproximar. A Misato, ela pede que a Rei faça o ataque e a Asuka fique na retaguarda. Mas a Asuka, obviamente, não aceita e vai pra porrada. Quando a Asuka chega na superfície, ela sabe que, se ela falhar, ela pode perder o posto de piloto do EVA-02. Então ela tá ligada que ela tá na beirola, ela tá ligada que ela não tá apta a desenvolver esse papel, ela tá ligada de todas essas coisas. Não é aquela pessoa que vai ser demitida do nada, sabe? Ela sabe que ela tá ali de aviso prévio. Ela mira com um sniper, mas o anjo tá longe demais. Ela atira, só que, por conta da gravidade e tudo mais, ele não consegue chegar até o anjo. Daí rola o momento mais esquisito desse episódio,
que o anjo manda um ataque mental, que desce uma luz em cima do Eva da Asuka e começa a tocar aleluia, aleluia, aleluia, aleluia, aleluia. E eu fiquei muito tipo: cara, pra onde que esse desenho tá indo, cara? E a Ritsuko fica com receio de que talvez então eles desvendaram o funcionamento da mente humana, que aparentemente é como se ele estivesse vasculhando a mente da Asuka. E ele começa a invadir a mente da menina. A Misato, ela pede pra ela voltar, mas ela responde que ela prefere morrer do que voltar. De novo batendo naquela tecla, o orgulho mais longo em linha reta. Que é foda. E, de novo, a Asuka, ela vive em cima dessa mentira de que ela consegue viver sozinha e tudo mais,
e o problema é que, a partir do momento em que ela tá vendo que ela não consegue, que ela não é capaz, que ela não é autossuficiente, que ela não é uma plantinha que vive de luz do sol e tá de boa, tipo, tá desmoronando tudo. Porque essa mentira era o núcleo dela. Essa mentira é aquele pilar principal. Essa mentira é aquela estrutura que impede que o prédio caia, sabe, que ela construiu num momento de necessidade e num momento que ela não era desenvolvida psicologicamente pra fazer isso. Então esse negócio de: eu prefiro morrer do que admitir minha derrota, é muito forte, é foda, sabe. Porque, de novo, eu entendo a Asuka, eu entendo muito a Asuka. Claro que, respeitadas as devidas proporções, mas eu também sou uma pessoa extremamente orgulhosa.
Eu também tenho um ego gigante, e esse meu orgulho, em vários momentos, me impediu de ter uma boa vida. Porque em vários momentos em que eu também não contava com munição psicológica o suficiente pra admitir que eu tava errado, pra pedir desculpas, pra pedir perdão, pra, sabe, mano: você fez merda, baixa a cabeça e fica quieto. Que é uma coisa, cara, que faz parte de crescer, sabe. Todo mundo vai pisar na bola, todo mundo vai fazer merda. E o que nos define como pessoa é o que a gente faz nessas situações, como a gente responde a essas situações. E eu ainda tenho vários problemas disso, tô trabalhando todas essas coisas na terapia. Mas já tive situações em que o meu orgulho entrou na frente da razão, em que eu realmente
passei por péssimos momentos, porque eu não queria admitir, eu não queria dar o braço a torcer de que eu precisava de ajuda. Então eu entendo. Claro que eu não iria até esse limite como a Asuka foi, mas eu entendo, eu super entendo.
Nisso, a Rei, ela tá também com um rifle, e ela dá um tiro assim na potência máxima, mas ela não consegue ultrapassar o campo de força do anjo. Nisso a gente começa a ter uma representação maior do que tá acontecendo na mente da Asuka, em que, conforme o anjo vai vasculhando a mente dela, é como se ela estivesse assistindo a essas memórias que ela não queria acessar mais, que ela não queria mais ter que reviver. E, pelo fato do anjo estar olhando tudo isso, a gente olha também, mesmo que de uma maneira um pouco desconexa e tudo mais. A gente começa a ter acesso.
E a Asuka tem sérios problemas familiares, a gente já estabeleceu isso. Inclusive tem um momento em que a voz da mãe, ela diz pra elas morrerem juntas. E eu acredito que a mãe, ela se matou no hospital, e o objetivo dela era que a Asuka também se matasse junto com ela. A Asuka tem vários diálogos ali, tem várias vozes em momentos diferentes, que não dá pra ligar exatamente o que é em qual momento, mas tem voz dela falando: sim, mãe, tudo bem, vamos lá. E tem voz dela falando que não, que ela não é a boneca da mãe dela e que ela não vai fazer o que a mãe dela tá querendo que ela faça, porque ela tem a vida dela, ela tem as necessidades dela, ela tem as vontades dela. E isso, principalmente pra uma criança, ter que passar por esse tipo de situação… É absurdo. Destroça qualquer pessoa.
Então ela bate muito nessa tecla de não precisar de ninguém, mas a Asuka é a pessoa que mais precisa ser validada de todas. Porque ela foi trocada, colocando muitas aspas aqui, por uma boneca pela mãe. É uma parte visualmente muito impressionante, muito impressionante. Ela é confrontada, que nem eu falei, com tudo isso que ela quer deixar pra trás, e ela tenta se segurar nessa mentira que ela criou pra si mesma, de que ela pode viver sozinha. Mas é justamente por ser uma mentira, por ser falso, que isso desmorona. Porque a partir do momento em que a Asuka, ela constrói, que nem eu já mencionei, ela coloca isso como pilar… E assim, todos nós temos esses pilares, todos nós temos essas, entre aspas, verdades universais, que são as nossas verdades universais.
Quais são os nossos princípios? Quais são as coisas que a gente realmente acredita? Quais são as coisas que, num momento de pressão, num momento de desespero, de pensar rápido, quais são as verdades que a gente vai obedecer? Quais são as coisas que a gente vai fazer automaticamente porque elas já estão tão concretas dentro da gente que, meu, sai. Só sai. Simplesmente, tipo, é isso que a gente acredita. Claro que, hoje em dia, quando a gente fala muito sobre desconstrução, desconstrução do mito do homem perfeito e que não pode chorar, não pode ter sentimento, desconstrução de muitas coisas que são tidas como comuns na sociedade, só que, na verdade, são coisas negativas. A gente tem sempre esse papo da desconstrução, que a gente está sempre tentando
se desconstruir. E o que isso significa? A gente está querendo pegar essas partes nossas, essas partes do nosso core, do nosso centro, e realmente tentando dar outra forma para elas. A gente está tentando desconstruir essas partes nossas que não são positivas e tentando construir outras no lugar. Tentando fazer com que o nosso centro, fazer com que o que a gente tem como norte, a nossa bússola moral, que todos nós temos dentro da gente, aponte pra um norte melhor. Só que, ainda assim, a gente pode alterar a maneira com que a gente pensa e tudo mais, mas a gente não pode mentir pra si mesmo e achar que aquilo vai segurar a gente. A gente não pode viver em cima de mentira, mentindo pra si mesmo. É muito fácil a gente viver em cima de mentira quando a gente mente da porta pra fora, quando a gente mente para os outros:
ah, não, eu acredito nisso, acredito naquilo. Mas dentro de nós mesmos a gente sabe que aquilo é mentira. Dá pra fazer isso, é muito difícil, mas dá pra fazer isso. Eu sou uma das pessoas que mais mente que tá feliz na vida, porque eu sinceramente tem dias que eu não quero incomodar ninguém com a minha tristeza. Então, é muito fácil mentir qualquer coisa da porta pra fora, mas dentro a gente sabe como a gente tá. Mas mentir essas verdades universais, no caso da Asuka, mentir sobre ela pode viver sozinha, ela pode ser autossuficiente… É mentira, e ela sabe disso. E, pelo fato dela saber que é mentira, que, meu, quebra tão fácil. Nisso ela tá, meu, em frangalhos. Ela tá já num ponto, assim… O Eva dela desliga até, porque ela não tem nem força pra fazer nada. O comandante
então pede que a Rei, ela desça pro Dogma e que ela pegue a lança, a lança do destino. Nesse momento foi muito awkward, na verdade, porque a Misato joga um verde sobre o… Não, mas o contato do Eva e o Adão pode causar o terceiro impacto. E ninguém nem pisca porque ela tá falando. Ou seja, tipo, mentirada foda. Ela jogou o verde e ninguém comprou. Então ela meio que… Opa, peraí. Então não é tão simples assim. Terceiro impacto não é só você deixar, sei lá, um Evangelion se aproximar do Adão.
Nisso, enquanto a Rei tá descendo, o vice-comandante diz que é cedo demais, que os anciões, eles não vão deixar. Mas o comandante Ikari diz que não tem outro jeito, que eles tem que dar um fim em tudo antes da SEELE entrar em ação. Beleza, tá lá a Rei na frente do Adão, ela puxa
a lança, e, assim que ela puxa, o Adão se regenera. Porque, como a gente lembrava, tá só a metade de cima do corpo ali, crucificado. Assim que ela puxa a lança, cresce as pernas novamente do Adão. Ela sobe e ela joga a lança como se fosse um javelim nas Olimpíadas. Eu acredito que aquilo foi rotoscopia, cara, porque é perfeito o movimento dela. Os passinhos de lado e tudo mais. Ela joga a lança, ela bate no campo de força, depois ela liga umas turbinas e estoura. Eu tô fazendo muitos efeitos sonoros hoje. E ela estoura o anjo pelo meio. E ela tá absurdamente forte, ela continua indo, e eles até falam que ela entrou em órbita lunar e vai ser impossível recuperar ela nesse momento.
A gente finaliza o episódio basicamente com a Asuka ajoelhada, meio que isolada ali. E quando o Shinji vai falar com ela, ela continua do mesmo jeito, odiando tudo e todos. E sinceramente eu não sei o que vai ser desse personagem daqui pra frente. Ok que a gente tem só 4 episódios, mas, de novo, eu sinceramente não sei. Porque ela falhou de novo. Ela até bate na tecla de que foi a Rei que salvou ela. E ela falhou, e ela falhou. E agora ela foi obrigada a reviver todas essas coisas, ela foi obrigada a olhar pra toda essa situação do passado dela novamente. E, bicho, ela não tem mais compostura, ela não tem mais nenhum mecanismo de defesa. Ela, mano, ela tá destroçada. Então realmente eu sinto que, figurativamente, o anjo matou a Asuka nesse episódio.
Porque ela, na minha opinião pelo menos, daqui pra frente ela não vai ser mais capaz de pilotar o Eva. Ela não vai ser mais capaz, a não ser numa situação de muito extremo, de extrema necessidade, em que, sei lá, meio que o que aconteceu com o Shinji, sabe? Quando ele abandonou e depois ele volta. Talvez aconteça o mesmo com a Asuka. Mas eu sinto que nesse episódio ela morreu. Porque o que ela mantinha ali como aquela bússola moral, como aquela verdade, aquele pilar dentro dela, foi despedaçado, virou pó. Então eu não sei se ela vai ter tempo de se reconstruir, e eu não sei nem por onde ela começa. Porque a Asuka agora, ela tá uma pilha de ódio, e é muito difícil você sair desse lugar. É muito, muito difícil você sair desse ponto em que você sente que a sua vida tá no pior momento dela, você sente que você tá no fundo do poço,
e que a culpa é de todo mundo, e que a culpa é tua, e que você odeia todas as pessoas. É um lugar muito escuro, cara. É um lugar muito, muito ruim de se tá. Então… Eu tô um pouco preocupado, pra falar a verdade. Porque… Eu não sei, obviamente, tudo que eu tô falando aqui é muito do que eu tô sentindo em relação à personagem. Mas eu sinto que a Asuka acabou, cara. E eu sinto que a gente não vai conseguir mais ter um momento legal com ela até o final desse desenho. O que me deixa muito triste, pra falar a verdade.
Mas é isso. Eu gostei do episódio. Outro episódio bem dolorido, na verdade. Gostei porque ele deu mais do passado da Asuka. Ele deu mais informações sobre uma das minhas personagens favoritas. Então foi legal por causa disso.
Consegui finalmente entender muito de porque ela era como era, consegui entender muito de onde ela tava vindo. Mas termino com esse gosto extremamente amargo na boca, pra falar a verdade. Porque, se o desenho for lidar com a situação da Asuka com a gravidade que ela tem, a Asuka não volta, cara. A Asuka, ela tá fadada a ficar de molho e acompanhar as coisas agora daqui pra frente como espectador. Mas eu sei que a Asuka não vai conseguir, e eu fico com medo disso. Eu fico com medo de que, na verdade, o final da Asuka seja basicamente ela se sacrificando. E eu tenho tanto medo, cara, eu tenho tanto medo. Porque há sim a possibilidade dela se sacrificar, e ela ver que ela fez diferença, e ela se sentir validada naquele momento, e ela pelo menos morrer em paz.
Mas, do jeito que essa animação é desgraçada, é capaz dela se sacrificar pra nada, e a existência dessa garota foi pra nada. E eu tô com tanto medo, cara, tô com tanto medo. Já tô sofrendo muito por antecipação. Mas, sei lá, isso já meio que já invadindo ali a parte de expectativas, das coisas que eu acredito que podem acontecer pros próximos episódios: eu acho que eles precisam começar a dar uma andada, eles precisam começar a correr. Talvez eu não tenha tantas respostas quanto eu esperava nesse final, nessa reta final. Afinal de contas, nós temos o filme, e, se o filme é necessário, quer dizer que muita coisa não foi respondida durante a animação. Eu sinto também… Porque teve uma conversa que eu tive com o André e o Sushi lá do Jogabilidade, e eles até mencionam que, cara,
o filme tem alguns aspectos específicos porque ele é muito uma resposta aos fãs e tal. Então eu não sei se eu tô apto e preparado pra ver tanto essas coisas nas entrelinhas, pra realmente entender tudo que tá sendo dito. Tanto que o último episódio dessa primeira temporada não vai ser o episódio do filme. O último episódio vai ser posterior ao filme, vai ser um episódio final, em que, depois do filme, eu vou ler, vou ver todas as outras opiniões de todas as outras pessoas, tudo que eu puder consumir de Evangelion, pra justamente chegar e dizer pra vocês a minha opinião final sobre a série, tendo toda a munição possível por todos esses anos de estudo, todos esses anos de discussão, todos esses anos de explicações.
Eu quero consumir o máximo possível de informação pra chegar no último episódio e as vezes também olhar pra trás e ver o quão errado eu tava, o quanto eu tava sendo raso em relação a algumas coisas enquanto eu tava viajando na maionese em outras. Mas, mesmo assim, toda essa jornada… Eu sinto que o programa, ele chama o Minha Primeira Vez porque realmente é a minha primeira vez experienciando Evangelion. Então eu queria ir o menos preparado possível mesmo, e tentar ver o que que ia sair com o conhecimento que eu já tenho sobre a vida, o mundo e as coisas em geral. Então o último episódio vai ser esse wrap up. E vamos lá, vamos ver, a gente está se aproximando.
Mas é isso, eu espero que vocês tenham gostado. Se vocês quiserem dar um feedback sobre o podcast, em todas as redes sociais eu sou o Caio
Corraini, um grande abraço e tchau, seus lindos. Esse podcast foi produzido pela Maremoto.
Casa do Corra