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Casa do Corra
Evangelion Episódio 25

The Ending World

Temporada completa30 episódios
29 mar 2020 · 27 min

O episódio das cadeiras e das telas pretas: a instrumentalização começa e cada personagem é interrogado pelo que carrega - o Shinji, a Asuka, a Misato e uma Rei em paz absoluta no meio do desmoronamento geral.

Contra tudo que me avisaram, eu gostei. E paro no meio pra discutir Matrix, coma e o que exatamente a gente chama de realidade.

Primeira vez por aqui? Como o programa e esta temporada funcionam
O programa

Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.

Esta temporada

Eu nunca tinha visto Evangelion. Daí resolvi que a primeira vez ia ser gravada.

Assisto um episódio e gravo na sequência. Sem roteiro, sem pesquisa e sem voltar atrás pra consertar palpite furado - e tem muito palpite furado aqui.

Acompanhe a série pelos olhos do ineditismo. Seja ao meu lado ou rindo da minha cara.

Ler a transcrição 4.735 palavras

Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.

Olá, Personas! Meu nome é Caio Corraini e estamos todos com o cérebro virando patê, porque tá começando o Minha Primeira Vez. Hoje nós vamos discutir o episódio número 25 de Evangelion, The Ending World.

Eu acho que eu começo todos os episódios como… Ah, ok… Nesse final, eu sei que muitas pessoas me avisaram, inclusive, pra que eu assistisse o episódio 25 e o 26 e até o OVA como se fosse uma mesma coisa, como se fosse uma coisa só. Só que eu sou teimoso, e vocês vão ter que esperar o episódio 26 pra semana que vem.

Porque é bom também, porque eu sinto que assim a nossa cabeça, ela respira, e a gente consegue ser errado com mais propriedade. Então vamos lá. Acabei de terminar o episódio, assisti agora. E, como sempre, vou tentar ser um pouco cronológico em relação ao que tá acontecendo. Mas, nesse episódio, pelo fato dele funcionar de uma maneira tão diferente, vocês vão notar um pouco de vem e volta, umas viagens loucas, pra que possa fazer mais sentido. Pelo menos mais sentido nas minhas teorias atuais. Obviamente que o anime pode estar me jogando uma bola curva, pra que eu pense que é alguma coisa e depois ele: uou, não era isso não. Vamos lá, então vamos lá.

O episódio, ele começa com uma montagem um pouco esquisita, só que ela se mantém durante toda a extensão dele. Que é basicamente: o episódio inteiro, ele é feito de discussões pessoais. Por exemplo, do Shinji com outras versões dele e tudo mais, do Shinji com vozes de terceiros. E isso acontece com todas as pessoas nesse episódio. Ao mesmo tempo em que vem aquelas telas pretas que jogam questionamentos mais diretos, mais duros. Essas telas pretas me pareciam, tipo: não, cara, para com essa merda, eu quero essa resposta aqui. E meio que forçava os personagens a serem confrontados com aquele pensamento. Então foi um episódio bem duro com todos eles. E isso é interessante porque, na minha opinião, esse é um episódio pra mostrar que todas essas pessoas estão quebradas.

Da sua própria maneira, no seu próprio grau de profundidade, todas essas pessoas estão quebradas. A gente tem apenas um momento em que algo acontece efetivamente, na minha opinião. Em que a Rei, ela se encontra ali com o comandante Ikari, e pra mim isso está acontecendo na vida real. Mas todos os outros… Assim, é foda, porque, assim, o que é vida real, né? Depois desse episódio? Mas vamos lá, vamos aos poucos.

A gente começa pelo Shinji. E a gente começa pelo Shinji e a gente termina pelo Shinji. O meio, ele é desenvolvido entre os outros personagens. O Shinji, ele começa tendo aquela discussão, meio que tentando justificar o porquê dele ter matado o Kaworu. E foi o que a gente viu no último episódio, e foi foda pro moleque.

Por mais que eu tenha colocado pra vocês que eu senti um episódio que ele não construiu uma relação forte o suficiente pra que, ao ser quebrada, ela oferecesse realmente toda essa dor… Meio que: ok, essa era a mensagem que a gente queria te passar, sei que não foi o ideal, sei que a gente não conseguiu fazer o melhor dos trabalhos, mas é assim que o Shinji se sente agora. E a gente aceita, e internaliza, e vambora. Então o Shinji tá quebrado depois de ter matado o Kaworu. E ele vai discutindo, ele vai tentando justificar o porquê que ele matou o Kaworu: porque ele era um anjo, precisei matar ele; porque eu sou um piloto e é isso que eu preciso fazer; porque eu tenho muito medo de ser odiado pelo meu pai.

Depois tem um momento que ele aparece num lugar todo cheio de névoa, em que ele começa a chamar por todas as pessoas, pedindo que eles digam o que ele deve fazer. Porque o Shinji é isso. O Shinji é isso, ele tem essa

necessidade extrema de que as pessoas gostem dele, de que as pessoas o aceitem, de que as pessoas digam pra ele que: porra, é isso, parabéns, muito bem, sabe? E ele bate nessa tecla de que ele pilota o Eva pelos outros, de que, quando ele pilota, as pessoas elogiam ele, tratam ele bem. Só que nesse momento a gente começa a ver essas questões meio que quebradas pelo ponto de vista de outras pessoas. Nesse caso em específico, aparece a Asuka e ela começa a falar que o Shinji é um tonto. Porque na real ele pilota o Eva por ele mesmo. Só que aí aparece a Rei e dá uma bicuda na cara da Asuka, falando que: meu, isso vale o mesmo pra senhorita. É a mesma coisa que você.

Nisso a gente muda o foco pra Asuka. E esse episódio… Eu sei que, falando, obviamente, vocês estão ouvindo nesse momento, vocês assistiram o episódio. Então eu não preciso ficar tentando me justificar pela maneira

com que o ritmo foi colocado. Só que eu sinto que ele é um episódio meio que feito pra que a gente destrinchasse, num último momento, todos esses personagens, pra o que vai acontecer a seguir. E eu vou colocar as minhas considerações quando a gente chegar nesse momento.

Então a gente muda o foco pra Asuka, e ela começa a dizer que é imprestável, já que ninguém precisa de uma piloto que é incapaz de fazer o Eva se mover. Porque, assim, cada um deles meio que tem vozes que vão os julgando, sejam deles mesmos ou das pessoas ao redor. No caso da Asuka, vem a voz da Rei, e ela diz que: você está errada, você está tentando se encontrar nos outros. O que é uma coisa que muitas vezes a gente faz, que a gente acaba caindo nessa armadilha na nossa vida também: de que a gente procura a nossa felicidade nas outras pessoas, de que a gente procura um sentido de viver

nas outras pessoas. Enquanto esses sentimentos, eles precisam partir de nós mesmos. A gente que precisa levantar da cama todos os dias, a gente sabe o corre que a gente precisa fazer, e essa energia precisa sair da gente. Ela não pode sair das outras pessoas, porque essas pessoas, elas podem simplesmente ir embora. Isso já aconteceu comigo e eu acredito que já aconteceu com quase todo mundo. Então eu acredito que crescer, envelhecer, amadurecer é um processo de encontrar essa força dentro de si mesmo. E, no caso da Asuka, ela ainda não tá lá. Ela ainda tá debatendo, ela ainda tá, tipo, tentando negar isso. E a voz da Rei fala: meu, você tem medo de ficar sozinha. Porque é isso, exatamente o que eu tava falando agora. Porque, se você coloca todas as suas forças, as suas motivações em outras pessoas, em coisas que estão fora de você, a partir do momento que essas coisas acabam, vão embora, ou, sei lá… Ficar sozinho dá medo, porque você não tem

mais motivação.

E nisso a gente muda o foco pra Rei. A Rei, pra mim, nesse episódio, foi assim, tipo, perfeita. Porque a Rei, ela… Assim, tá todo mundo quebrado, inclusive ela. Só que a Rei tem uma paz, ela tem uma segurança, é uma coisa muito louca, que ela é o nosso ponto de apoio, na verdade, nesse momento, sabe? Porque tá todo mundo desmoronando, enquanto a Rei fala: foda-se, não, tem isso aí mesmo, eu não sei quem eu sou, eles chamam de Rei um monte de gente, mas eu sou eu, e pau no cu de todo mundo, tá ligado? No caso dela, a discussão interna é de que ela é de mentira, porque ela foi fabricada. Mas, ao contrário dos outros dois, que nem eu havia mencionado, ela parece muito mais segura de si nessas discussões. E ela chega à conclusão de que o que ela é nesse momento foi moldado pelas interações que ela teve com as outras pessoas.

Que esses laços foram responsáveis por quem ela é. Então não importa o porquê que ela foi construída: o que ela é agora é só dela. Porque só ela teve isso. Isso é do caralho, isso é do caralho. Eu bati palma pra Rei nesse episódio, apesar de eu ficar morrendo de medo do que vem a seguir. Mas, no fim dessa primeira parte dela, a gente dá aquela volta e a gente retorna até o fato de que ela também tem medo de desaparecer do coração dos outros. Afinal de contas, ela pode ser substituída, mais ainda no caso dela, que tem outros seres iguais. Então ela também tem esse receio.

Mas tem um momento que pra mim é interessantíssimo, que vem um lapso esquisito dentro da Rei. Que, ao contrário dos outros, quando essas vozes começam a pinicar ela em relação a isso, ela responde que ela deseja o desespero, que ela quer morrer e voltar ao nada. Mas, agora que ela tá aqui, que ela é algo, ela tem medo. Afinal de contas, quando você não tem nada, você não tem medo. O que você vai perder? Você não tem nada, você não é nada. Então, agora que ela tá aqui, que ela se sente como algo, que ela se sente como uma pessoa que construiu coisas, no caso esses laços, ela sente medo, porque agora ela tem o que perder. Mas ainda assim ela é ciente de que ela existiu até esse momento só pra isso. E aqui acontece a cena em que o comandante Ikari chega pra ela e fala: Rei, agora. Você existiu

pra esse momento. Vamos lá. E eu acho que esse momento, ele não é figurativo, eu acho que esse momento, ele é real, ele é tátil. Isso aconteceu. Essas pessoas estão se movimentando para que algo aconteça.

E depois dessa cena a gente corta pra instrumentalização humana. Aí foi quando meu cérebro começou a derreter. Porque qual que é o conceito para a instrumentalização humana? Todos nós temos um vazio no coração, e é o que cria o medo e a insegurança. Então o plano da instrumentalização humana é unir o coração de todo mundo, pra que esse sentimento não exista mais. Vamos partir do princípio de que isso, um, é possível, e, dois, não é absurdo. Vamos partir desse princípio, que esse é o plano do comandante Ikari. Até esse momento, obviamente, não assistiu o episódio 26, não assistiu o OVA, blá blá blá blá blá. Vamos partir do pressuposto de que

esse é o plano do Ikari. Ainda assim, o meu cérebro começou a esguichar do meu nariz, sair pelas minhas orelhas, tipo: cara, como? Como assim, tá ligado? E assim, eu entendo o fato de que os exemplos que eles colocam na mesa depois disso, e a motivação por trás do porquê tudo isso tá acontecendo, me parece válida. Porque todas as pessoas ali, elas estão destruídas. Então, em todas essas pessoas, esse vazio do coração, ele tá muito forte, ele tá muito grande. Mas vamos aos poucos, né?

A gente começa com o primeiro caso, que é agora a vez da Misato. Ela diz que ela precisava ser uma boa menina pra não dar problema pra mãe, e que por isso ela odeia essa imagem correta que ela tem que manter. Porque a Misato, ela atingiu o ranking de major e é uma pessoa que é muito boa no que faz, é uma pessoa extremamente responsável,

por mais que na vida pessoal dela ela seja meio que o caos: a casa dela tá sempre um lixo, o relacionamento dela com o Kaji, que eles aprofundam bastante em alguns sentimentos que não estavam expostos aqui. Isso foi muito foda, inclusive. Assim, eu já posso adiantar que eu adorei esse episódio, eu gostei muito desse episódio. Por mais que ele seja todo feito assim, tipo, com animações reutilizadas, assim, gente, pelo amor de Deus, eu sei. Mas eu adorei, eu amei esse episódio. Porque ele abraçou alguns conceitos, ele abraçou um ponto final, entre aspas, que obviamente ele pode ser quebrado no próximo episódio, mas eu tô adorando pra onde que isso tá indo, tá ligado? Tipo: ok, você me pegou, estou junto contigo, vambora! Eu sei que tem uma discussão de que um monte de gente odeia o final de Evangelion, tem muita gente que gosta, que depois o OVA, o The End of Evangelion, ele refaz as

coisas… Não sei, sinceramente eu não sei nem um pouco sobre nada disso. Só estou dizendo que, neste momento, depois de assistir o episódio número 25, eu gostei, eu gostei bastante.

Seguindo na parte da Misato. Ela odeia essa versão correta dela, essa versão boa menina da Misato. Começa aquela discussão de que ela queria se ver suja e maculada. E é por isso que ela se envolveu com o Kaji. E ela: não, eu me envolvi com o Kaji porque eu amo ele. Aí depois: não, você se envolveu com ele porque ele te lembrava teu pai. E, tipo, mano, foi muito, muito… Coitada da Misato, cara. Eu gosto tanto dela, velho. Por que vocês estão fazendo isso com ela? Mas aí tem um momento em que eles apresentam esse lado dela pro Shinji, e ela rejeita, afinal de contas não é isso que ela quer que ele veja. Ou é, né? Porque vem o questionamento de que: tipo, não, na verdade você gostaria que seu pai visse essa versão de você. E tarará.

E assim, eu entendo que pra essas pessoas… Eu já tive esse tipo de discussão com algumas pessoas na minha vida de verdade, que eram extremamente corretas, que eram extremamente regradas. Tinha uma garota na minha faculdade que ela era excelente, a mulher perfeita: ela era estudiosa, era inteligente pra caralho, andava sempre impecável, e ela não bebia, ela não se relacionava com ninguém. E um dia a gente começou a conversar sobre isso, porque eu tinha uma curiosidade muito grande. Falando: cara, mas assim, você não sente vontade, você não tem desejos, você não tem, tipo, vontade de simplesmente jogar tudo pro alto e falar foda-se? E ela me falou: sim, o tempo todo, mas o que eu tô fazendo agora é o que eu preciso fazer agora. E isso pra mim não fazia sentido, bicho. Não fazia sentido. Eu falava: cara, mas como? Como que você

esgana essas suas vozes, esses seus desejos, todas essas coisas? Como que você não dá vazão a isso, sabe? Hoje em dia ainda não entendo 100%, vou ser sincero pra vocês, super ainda não entendo. Mas, pessoalmente, eu tô num momento mais ou menos parecido. Em que a Maremoto, ela demanda tanto da minha vida, em que, sei lá, a Mococa demanda da minha vida, em que várias coisas que estão ao meu redor, que são as minhas prioridades agora, demandam todas as minhas forças. Em que, na última sessão de terapia que eu tive, a minha psicóloga, ela falou: Caio, eu não enxergo mais o homem, Caio. Eu não enxergo mais o seu lado homem, porque você adormeceu ele 100%. Agora eu só vejo o Caio Pai de cachorra, só vejo o Caio Empreendedor. Eu não vejo o Caio que quer sair, que quer se relacionar,

que sente, sei lá, tesão nas outras pessoas. Porque você abafou tanto essas coisas, porque você sabe que esse seu lado, nesse momento, ele não é útil. Então você não pode dar vazão a ele, sabe. Porque antes, antes de eu lançar a Maremoto e todas essas coisas, a maioria dos questionamentos e dos problemas e das dores e tudo mais que eu levava pra terapia era de, tipo: putz, passado mal resolvido, e ansiedade ao conhecer uma pessoa nova, e dificuldade em relacionamento, e todas essas coisas, sabe? Só que, assim que a empresa nasceu, esse meu lado morreu. Porque, bicho, eu trabalho mais de 12 horas por dia. Quando que eu vou poder sair com alguém, tá ligado? Quando que eu vou poder dar atenção a uma pessoa, a uma guria, pra ter um relacionamento? Eu não tô conseguindo nada de atenção a mim mesmo. Eu tô com um corpo de tio, tá ligado? Corpo de pai, porque foda-se o que eu como, o que é mais rápido, porque eu preciso voltar a trabalhar.

Então, voltando. Por que eu cheguei nesse momento? Porque, voltando lá atrás pra conversa que eu tive com essa minha amiga da faculdade, agora eu entendo o porquê que ela calava essas vozes. Porque, naquele momento, era isso que ela queria fazer. Ela queria, tipo, se formar da melhor maneira possível, e essa era a prioridade. Então essas outras vozes ela calava, ela suvocava. Só que dava pra perceber que, dentro dela, isso tava gritando, isso ia entrar em erupção em algum momento. Eu espero que ela tenha conseguido dar vazão a todos esses sentimentos e se encontrado e voltado a ouvir essas vozes, porque elas são extremamente necessárias. E, no caso da Misato, a mesma coisa: pelo fato dela tentar colocar pra fora só esse lado correto, esse lado perfeito dela, o lado humano, o lado, entre aspas, sujo dela, ela revelava só pro Kaji. Então, quando eles apresentam esse lado

pro Shinji, ela não quer que ele veja. Mas, ao mesmo tempo, tem aquela vozinha, tipo: mas é isso que você quer, sim. Você quer que as pessoas te vejam como você realmente é. E ela tenta fingir pra si mesma que ela é feliz, mas na verdade ela só tá vivendo a vida que ela construiu pra si mesma, e é uma vida que não é verdadeira. Então, nossa, esse momento da Misato, assim, foi pra mim excelente. Duro pra caramba, porque eu amo a Misato, adoro a personagem, mas é muito bom, sabe, ver o quanto a gente consegue traçar paralelos. E eu sei, assim, no último episódio eu não consegui ter clima de fazer isso, porque eu não gostei do episódio, ainda tava no começo do Corona, sabe. Então tava num momento muito pesado. Ainda tá um momento extremamente pesado, a gente não chegou no pico da curva. Mas eu sinto que nesse momento eu tô mais estruturado pra conversar, pra falar sobre essas coisas. E eu já estou mais satisfeito com esse episódio, sendo que ele ainda nem acabou.

Eu prefiro muito mais esse episódio 25 do Minha Primeira Vez do que o episódio passado, justamente porque eu tô conseguindo dar vazão a essas discussões.

Nisso a gente chega no caso 2, que é a vez da Asuka. E que, da mesma maneira que a Misato, é apresentada uma versão do Shinji que vive dentro dela. Eles trazem isso várias vezes, de tipo: ah, não, essa é a sua versão que vive dentro de mim, essa é a minha versão que vive dentro de você. Porque a gente já teve essa discussão uns episódios atrás: que nós mesmos temos várias versões, dependendo de como a gente age e a gente convive com as pessoas. Tem pessoas que só enxergam a gente pelas nossas qualidades, tem pessoas que só nos enxergam pelo nosso lado negativo, né? A pessoa que fica no lado esquerdo da escada rolante, que eu falo: dá licença, seu arrombado, provavelmente não gosta de mim. Ao contrário de vocês, que estão ouvindo esse podcast nesse momento. Ai, que raiva que eu tenho de gente que é parado na escada rolante,

gente, puta que pariu. Eu virei muito paulistano, né? Anyway, voltando pra Asuka. A Asuka, toda a questão dela: que ela quer viver por ela, que ela não quer mais chorar, por mais que ela viva ainda chorando. Ela sente que ela foi abandonada pela mãe, que acabou sucumbindo à loucura, tratava a boneca como se fosse ela e que escolheu morrer no final. Inclusive, queria levar a menina junto. E também ela se sente abandonada pelo pai, que casou novamente, cuja esposa não aceitava a Asuka, porque tinha até medo dela. Toda questão da Asuka é que ela quer viver só, mas ao mesmo tempo ela reconhece que isso é difícil demais, ela não aguenta esse fardo. Então é complicado. Porque, de novo, toda hora, todos os episódios, eu já falo isso pra vocês desde o ano passado: eu me reconheço demais na Asuka. Obviamente que minha mãe não ficou louca, mas eu me reconheço demais na Asuka.

Então eu também minto pra mim mesmo de que eu sou autossuficiente, de que eu posso, de que eu faço e aconteço. Mas, na verdade, a gente… Meu, a gente acabou de começar a quarentena, tá ligado? Tipo, eu queria muito dar um abraço num amigo. Só isso, sabe? E eu sinto que é meio que assim que a gente vai sair do outro lado, sabe? Tipo, dando mais valor a essas coisas, talvez. Pelo menos é o que eu espero.

De volta pra animação: a gente vai finalizar esse episódio discutindo sobre a instrumentalização humana. Porque, pelo que eu consegui pescar, o projeto se resume a retrair as pessoas a um estado em que cada uma tem o seu mundo próprio, moldado às suas vontades? Porque, quando eles colocam isso na frente do Shinji, eles mencionam, tipo: ah, não, isso aqui é o que o seu coração decidiu. Você

toma todas as decisões. Ou seja, as dores que o Shinji sente foram desejadas por ele mesmo. Ele desejou esse mundo isolado e que ele se sentisse confortável sozinho. Mas, ao mesmo tempo, é meio esquisito. Porque, eu não sei se isso já aconteceu com vocês, assim, de tipo: tem algumas coisas negativas que acontecem nas nossas próprias vidas, que a culpa é 100% nossa, e que a gente na hora tá lá sofrendo, tá ruim, tá uma bosta, nananã. Mas depois você para e pensa e fala: mano, eu só posso ter desejado por isso, porque eu fui o responsável por isso acontecer, eu fui o catalisador pra todas essas coisas, sabe? Então, eu não sei se todo esse final, ele é só metafórico, como em alguns outros momentos a animação foi - aquelas discussões no trem, todas aquelas discussões

internas que os personagens têm, o que pra mim é do caralho -, ou se isso é efetivo. Porque em vários momentos aparecem os personagens falando: não, isso é o que é a realidade agora, essa é a realidade agora. Porque, assim, oh boy, agora a gente vai. O que é real e o que não é? Porque, se todas as coisas que a gente vivencia são determinadas pelo nosso cérebro, pela maneira com que os nossos sentidos funcionam… As nossas terminações nervosas vão e permitem que, eu encostando nessa garrafa d’água, eu sinta que ela está um pouco gelada, um pouco molhada, um pouco pesada, porque tem líquido dentro, sabe? Tipo, todas essas coisas estão sendo registradas no nosso cérebro. Se por algum acaso o nosso cérebro for reprogramado, se por algum acaso o nosso cérebro for danificado por algum agente externo, ou alguma doença, ou qualquer coisa,

a realidade muda, mas ela não deixa de ser verdade. Ok que, por exemplo, uma pessoa que está em coma… Às vezes ela está em coma e o cérebro dela ainda está ativo e, na verdade, a consciência dela estava vivendo todo esse tempo em uma outra realidade que foi construída pelo próprio cérebro dela. Vamos trazer aqui pra essa questão da instrumentalização humana: ela tava em coma e ela tava vivendo num mundo que foi criado pelo cérebro dela, e vivenciando as próprias dores, as próprias alegrias, tomando as decisões e moldando o mundo de acordo com o que ela tinha dentro da própria cabeça. Quando ela é retirada desse estado, ou ela acorda, ou sei lá, você vai virar pra ela e falar: não, era de mentira? Bicho, ela tava lá, ela tava vivendo, ela tava sentindo, ela tava tudo isso. É a mesma coisa que Matrix, tá ligado? Que desgraça, né? A gente tem que trazer Matrix como… Mas é excelente o exemplo.

De que, tipo: ah, você prefere vir pro mundo real, que é uma bosta, ou você prefere ficar dentro da Matrix comendo o bife gostoso? Porque o que a gente sente que é real, é real. O que o cérebro identifica como real, é real. E esse é o mundo que existe. Eu, falando na frente desse microfone aqui, pode muito ser a simulação da simulação, da simulação, da simulação. Ou pode ser, sei lá. Então, entende? O que é a realidade? Não tem isso de realidade: ah, não, isso aqui é realidade, isso aqui não é. Por que eu tô trazendo essa discussão? Porque esse episódio inteiro, ele bate nessa tecla. Nesse final, ele fala: cara, isso é o real. Todos esses sentimentos, o que você tá sentindo, é de verdade. E isso vai ficar contigo. Só que a maneira com que é apresentada pra gente, deles, como se fosse um palquinho de teatro, de escola, sabe? Dá a impressão, tem uma metáfora ali, de que isso,

na verdade, esteja acontecendo só dentro da cabeça deles. Só que, se tá acontecendo só dentro da cabeça deles, onde que eles estão, entre aspas, na vida real? Que inferno!

Então, eu vou parar essa discussão por aqui. Eu queria ter essa discussão por quê? Porque isso tá latente, eu precisava falar sobre isso, e pra preparar a gente pro próximo episódio. Porque, afinal de contas, esse aqui é totalmente interligado ao próximo episódio e também ao OVA depois. Eu nunca sei se eu falo OVA ou O-V-A, eu não sei. De qualquer forma, eu queria ter essa discussão porque eu sinto que é uma discussão legal, e que talvez, ao ter mais informações concretas, eu talvez não a teria. Então é por isso que essa semana vocês vão ter só esse episódio. Semana que vem a gente volta com o 26, na outra semana o 27, e aí depois eu vejo o que eu vou fazer. Porque eu pretendo fazer um episódio depois de ler tudo, assistir todos os vídeos que vocês me mandaram, tipo, de debulhar. Mas, assim,

eu gosto de poder vomitar todas essas coisas, que podem muito bem ser verdadeiras ou não. Afinal de contas, essa questão de instrumentalização humana, ela é meio que trazer todas as pessoas pra esse lugar, entre aspas, confortável, em que os corações delas estão unidos. Isso de uma maneira metafórica ou de uma maneira material? Tipo: ok, vamos trazer todos os corpos de todo mundo e juntar num blob? Ou todas essas pessoas vão ter esse mundo próprio, em que o mundo é desenvolvido na mente de cada um, e por isso eles não vão mais sentir esse vazio do coração? Eu não sei, eu não sei. E por mim tá tudo bem não saber. Eu gostei muito desse episódio, como eu já mencionei no meio dele. E as minhas expectativas é que no próximo episódio a gente tenha pelo menos um hint se todas essas discussões, elas são materiais ou só metafóricas. E também a atuação da

Rei. Porque uma coisa que me trouxe é que, assim, aquela cena do parabéns, parabéns, Shinji, muito bem, parabéns… Isso pode muito bem ser o mundo que o Shinji criou pra ele. Esse é o fim do mundo que ele trouxe pra si mesmo, porque tudo que ele queria era ser aceito, tudo que ele queria é que as pessoas gostassem dele, é que as pessoas sentissem necessidade de tê-lo ao redor. E aquela cena esquisitíssima, que todo mundo manda no aniversário de todo mundo, tipo, da galera batendo palma e falando parabéns… Cara, isso pode ser muito o mundo que o Shinji criou pra ele mesmo, porque era tudo que ele queria. Então, a partir do momento que as coisas finalizam desse jeito, o Shinji está construindo um mundo em que ele é feliz. Meu Deus, cara, que doideira, sei lá. Eu tô bem feliz.

Até a semana que vem. Desculpa, eu sei que vocês estão me odiando agora, porque o meu plano era gravar os dois hoje, lançar os dois juntos, mas não, vocês vão

ter que esperar até a semana que vem. É isso, eu espero que vocês tenham gostado. Se vocês quiserem me dar um feedback sobre o podcast, em todas as redes sociais, eu sou o Caio Corraini. Um grande abraço, e tchau, seus lindos! Esse podcast foi produzido pela Maremoto.