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Casa do Corra
Evangelion Episódio 26

The Beast that Shouted "I" at the Heart of the World

Temporada completa30 episódios
05 abr 2020 · 18 min

O último episódio do anime, inteiro dentro da cabeça do Shinji - e eu do lado de cá pausando toda hora pra anotar, porque pela primeira vez na temporada o episódio ia exatamente pra onde eu ia junto.

Aviso desde já: eu sou a pessoa que gostou do final de Lost. E gostei desse também, e explico por quê - passando por Chiquititas, código de barras e o que eu tive que aprender a acreditar quando perdi tudo.

Primeira vez por aqui? Como o programa e esta temporada funcionam
O programa

Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.

Esta temporada

Eu nunca tinha visto Evangelion. Daí resolvi que a primeira vez ia ser gravada.

Assisto um episódio e gravo na sequência. Sem roteiro, sem pesquisa e sem voltar atrás pra consertar palpite furado - e tem muito palpite furado aqui.

Acompanhe a série pelos olhos do ineditismo. Seja ao meu lado ou rindo da minha cara.

Ler a transcrição 3.029 palavras

Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.

Olá, Personas! Meu nome é Caio Corraini e estamos todos de muitos parabéns, porque tá começando o Minha Primeira Vez. Hoje nós vamos discutir o episódio número 26 de Evangelion, o último episódio, The Beast that Shouted I at the Heart of the World.

Ok, chegamos ao fim, né? Depois de meses e meses que vocês estão me acompanhando nessa jornada, finalmente estamos no fim dela. Ou na cara do gol, né? Porque ainda eu prometo assistir o End of Evangelion, que é o filme. Os Rebuilds, eu acredito que eu só vou assistir quando o último tiver saído. Porque, pelo que eu fiquei sabendo - vocês podem me corrigir depois, obviamente -, já saíram alguns filmes do Rebuild, mas ainda falta um, que acredito iria sair esse ano, se não fosse o Coronga. Então eu vou segurar. Eu espero e assisto eles depois, quando já tiver tudo.

Porque eu não gosto de deixar as coisas não concluídas. Mas vamos lá, vamos discutir. Eu sei que eu deveria ter feito isso em conjunto ao episódio passado, porque um é um complemento direto do outro, mas eu achei que foi bom, na verdade, eu ter esperado, ter tido um tempo, ter tido um respiro entre o 25 e o 26. Vamos lá, de maneira um pouco cronológica, tentando ser bem descritivo. Porque, afinal de contas, esses são episódios um pouco mais metafóricos, então não dá pra eu falar: isso aconteceu, depois isso aconteceu, depois isso aconteceu. Porque na verdade não tá acontecendo nada, tá tudo rolando na cabeça do Shinji. Mas vamos lá.

A gente começa o episódio discutindo sobre a instrumentalização da alma do Shinji. Uma coisa interessante que eles mencionam é que o medo faz vir essa vontade de se tornar um só, já que um coração compensaria o que falta no outro.

E isso é verdade, né? Os meus medos, eles não são os seus medos, de outra pessoa, de outra pessoa, de outra pessoa. Então, como já diria aquele clássico da MPB, das Chiquititas, de que se o seu coração tem buraquinhos… Eu sinto que realmente isso faz sentido nessa questão de que, se o objetivo da instrumentalização humana é fazer com que todos sejam um só, se você junta todos os corações, você vai chegar num coração perfeito, que não tem nenhum espaço, não tem nada faltando. Já que, como eu já mencionei, um compensaria o que falta no outro.

No episódio, eles vão cobrindo todos os traços da personalidade do Shinji: o medo de ser abandonado, a impossibilidade de fugir, já que isso faz as coisas piores, o fato de que ele só possui uma identidade porque ele pilota o Eva. E essa questão do Eva, isso também transpassa pras outras crianças também, como a Rei e a Asuka.

E uma coisa que é interessante também: eles fazem um baita trabalho com áudio estéreo nesse episódio. Eu tenho duas caixas aqui, então eu via o som viajando de uma pra outra e de uma pra outra. Era bem legal pra dar aquele clima meio etéreo que a gente tem do começo até o fim, quase. E o Shinji tá travado numa reflexão sobre quem ele é. Afinal, a nossa imagem que vive nos outros não é totalmente verdadeira. A gente já discutiu sobre isso aqui antes algumas vezes.

Ele sente que ninguém entende nada dele e que, por isso, o fim do mundo que ele deseja é que sua alma seja isolada. Mas o poder de mudar isso tá totalmente nas mãos dele, que é o que a gente vai ver lá no final do episódio. O anime tem um momento em que ele materializa esses pensamentos dele num desenho bem simples, sem cores ou profundidade. Porque, afinal de contas, quando não se tem nada, você flutua no vazio.

Esse momento é muito interessante pra mim. Porque, deixa eu adiantar uma coisa: eu gostei, e eu gostei bastante desses últimos dois episódios. Claro que ele não é um final que a gente poderia dizer ortodoxo, ele não é o que a gente espera, ele não é o que a gente geralmente recebe quando a gente conclui obras de entretenimento. E talvez seja por isso que eu gostei dele. Porque também eu sou a pessoa que gostou do final de Lost. Então eu já queria colocar isso na frente pra todo mundo.

E eu gostei desse final. Claro que o resto das informações… Eu quero essas informações, eu quero o que acontece não só dentro da cabeça do Shinji, eu quero o que acontece no, entre aspas, mundo real. Eu quero isso, porque são mais informações de uma obra que eu gostei. Então, óbvio que eu vou querer mais informações. Só que, vamos lá, deixa eu colocar um ponto aqui antes da gente começar a discutir todo o resto das coisas que eu gostei realmente nesse final: talvez eu esteja, entre aspas, tranquilo porque eu sei que outras coisas foram desenvolvidas sobre o universo de Evangelion. Eu sei que tem o End of Evangelion, eu sei que tem os Rebuilds. Se eu quiser, depois eu vou dar uma olhadinha no mangá também, porque eu fiquei curioso pra ver se realmente foi assim que acontece no mangá, se não foi.

Eu sei que tem outras coisas desenvolvidas, e talvez por isso me dá uma liberdade maior, me dá um pouco mais de folga pra que eu fique em paz com esses últimos episódios, talvez. Porque eu realmente gostei, eu realmente gostei dos dois. Eles me trouxeram, principalmente na hora de desenvolver conteúdo… Eu gostei deles porque eles me ofereceram muito pano pra manga. Tem muita coisa legal pra discutir por causa deles, eles levantam muitos conceitos. Que, enquanto eu tava assistindo o episódio, sei lá, acontece alguma coisa, eu pauso e começo a fazer várias anotações, tanto do que eles estão apresentando quanto do que eu tô sentindo e pensando. E é legal porque, nesse episódio, sei lá, ele me colocava uma coisa, eu pausava, escrevi, escrevi, escrevi, escrevi, escrevi, escrevi, aí eu dava play e ele ia trazendo exatamente as coisas que eu ia escrevendo. Porque a gente tava muito alinhado.

Então foi uma experiência muito gratificante pra mim, na verdade, porque eu tava sendo muito assertivo nas coisas que eu tava pensando, sabe? Inclusive, nos feedbacks do episódio passado, teve muita gente falando: caralho, Corraini, você tava muito certo de um monte de coisa que você falou, sabe? Justamente por causa disso, porque eu sinto que esse final, ele conversa bastante comigo. E a gente vai chegar lá, né? Porque eu tendo a ser uma pessoa pique autoajuda, tá ligado? Então a gente vai chegar lá.

A gente tava naquele momento do Shinji de desenho, né? Ok. Bom, tudo é desenho, né, Corraini? Caralho. Não tem Shinji de pessoa humana. Mas o Shinji de preto e branco riscadinho. Quando ele tá flutuando no vazio. E é legal nesse momento porque o pai dele fala: pronto, toma essa restrição. E aí, naquele momento, aparece o chão e ele fica em pé em alguma coisa.

E é legal porque essas restrições vão sendo impostas pra que as coisas façam mais sentido, mas que ao mesmo tempo garanta que ele gradativamente vai perdendo essa liberdade completa. Como o exemplo que eu citei, como o céu e a terra: quando você coloca o céu, você estabelece, ok, essa é a parte baixo, essa é a parte cima. Meio que, se antes você estava flutuando no vazio, agora você estabeleceu um limite. E, a partir do momento que você estabelece limites, você faz mais sentido, mas ao mesmo tempo você perde liberdade. Em um mundo vazio, preenchido apenas pela sua própria existência, é muito simples acabar se perdendo, porque o que nós somos depende do reflexo ao nosso redor. Sem perspectiva, a gente some. Do mesmo jeito que a nossa vida precisa ser observada por outras pessoas para ser registrada.

Então, num mundo sem ninguém, como você estabelece paralelos e define como nós somos? Porque, assim, vamos lá, exemplos mais básicos. Eu sou alto? Sim ou não? Em referência ao quê? Eu sou, sei lá, minha pele é escura? Sim ou não? Em referência ao quê? Eu sou feliz? Em referência ao quê? Entendeu? Então a gente não consegue responder essas coisas num universo que não tem nada. Porque a gente não tem referência. Inclusive, nesse momento, uma fala do Shinji foi perfeita. De tipo: se estiver sozinho, sempre estarei. Onde quer que eu for. Porque, se no seu universo só tem você, só há você. Só está você. Só é você. Isso é muito legal.

Porque essa discussão traz de volta umas coisas que a gente já discutiu aqui algumas vezes, que é isso: a gente precisa dos olhos de terceiros, a gente precisa da existência de terceiros pra provar a nossa. Porque tem um lado nosso que ninguém conhece, que é o nosso lado de dentro, que é o lado que às vezes a gente não coloca pra fora. Seja das coisas que a gente gosta, seja das coisas que a gente não gosta, seja das coisas que a gente concorda, seja das coisas que a gente discorda. Seja, sei lá, sabe, vontades que ou a sociedade diz que não são corretas, ou a gente estrangula porque não conseguiria dar vazão a elas. Então, quem a gente transparece ser não é exatamente quem a gente é. Mas já é alguma coisa. E essa pessoa que a gente transparece ser, ela precisa ser validada.

Não validada, obviamente, tipo: ah, você é uma boa pessoa, você é uma má pessoa. Não. Mas validada no sentido que a gente precisa que o mundo leia o nosso código de barras para que a gente exista no sistema. Óbvio que muitas das nossas experiências, elas são suficientes caso elas fiquem conosco por dentro, sabe? Sei lá, se eu for viajar e não tirar uma única foto, aquelas memórias ainda vão fazer parte de mim. Só que, quando a nossa existência é assistida, é vivenciada, as ondas que a gente faz quando a nossa pedra cai no meio do lago, elas vão mais longe. Porque a gente vai atingindo mais pessoas, e cada pessoa que a gente atinge durante a nossa vida é mais um ponto que vai ressoar a nossa existência. Não sei se está fazendo sentido… Porque por isso que eu gostei tanto desse episódio, dessa discussão.

Porque a gente já teve ela antes, e isso pra mim é muito legal, porque isso é uma coisa que faz sentido, sabe? E, quando o Shinji percebe tudo isso, rola um estalo. E aí ele volta, entre aspas, ao mundo real. Mas que é, na verdade, só um mundo ideal criado por ele mesmo. Afinal de contas, a Asuka é uma amiga da infância, os pais dele estão num relacionamento comum, a Rei é a aluna nova correndo por aí com uma torrada na boca, e eles se trombam, e ele consegue ver a calcinha dela. Tipo, todos os clichês da vida escolar de um jovem japonês de uma vez só, sabe? Mas logo depois a gente volta pro teatro da escola, com a discussão se virando pra como a nossa própria visão da realidade é responsável por grande parte da realidade em si. E ele tem essa mensagem final de que, sem o amor próprio, a gente fecha as portas pra um amor que vem de fora. Que tudo depende do que a gente muda dentro de nós mesmos. E aquele papo de que, se a gente se conhecer melhor,

é mais fácil ser gentil com os nossos erros, que é preciso se perdoar e trazer de dentro a vontade que irá afetar e mudar o lado de fora. Assim, é um papo extremamente autoajuda. Mas, pra mim, ele não deixa de ser verdade. Por isso que eu gostei do episódio. Porque tem vários lados meus: alguns que eu escolho esconder, alguns que é automático que eles fiquem mais adormecidos, e todas essas coisas. Mas um lado meu que eu faço questão de deixar latente pra todo mundo ao meu redor - e quem já teve um relacionamento comigo, seja de amizade, seja mais amoroso, nos últimos tempos, sabe que isso é uma coisa que vem crescendo gradativamente - é a coisa que eu sempre falo, tipo: meu, tudo vai dar certo. Porque sempre dá. Porque, enquanto a gente não parou de tentar, não deu errado. Enquanto você não desiste de alguma coisa, ela não deu errado. Ela só tá on hold. Ela só vai demorar um pouquinho mais.

Então, esse é um tipo de pensamento que eu tive que construir depois que eu perdi tudo na minha vida. Depois que o meu casamento foi pro caralho, depois que eu tava sem casa, eu tava sem dinheiro, eu tava sem perspectiva de futuro, eu tava sem nada. Tudo que eu tinha construído nos últimos 10 anos até aquele momento tinha acabado, tinha ido pro chão. Eu não tinha absolutamente nada. Então, nesse momento de reconstrução, eu precisei acreditar nisso. De que: meu, tudo vai dar certo, sempre dá, relaxa, agora tá ruim, depois não vai tá. Se eu não acreditasse nisso, a minha existência teria acabado. Porque eu pensei em me matar várias vezes, justamente porque eu achava que as coisas não tinham solução, que era tudo grande demais, e eu era pequeno e fraco demais pra enfrentar tudo. Então, essa mensagem de que a gente precisa primeiro se perdoar, se amar, se gostar, pra depois o mundo começar a nos aceitar melhor, pra mim ela foi verdade.

E, em todos esses anos fazendo terapia, isso se mostra verdade semana após semana. Eu me sinto agora uma pessoa muito melhor do que quando eu era no começo da terapia. Por quê? Porque eu aprendi… Nossa, eu me desculpei por tantas coisas. Eu tirei tanto peso que eu achava que era culpa exclusivamente minha. Quando na verdade não: todas as relações humanas, elas são feitas de dois lados. Então é muito fácil, pelo menos pra algumas pessoas, porque isso acontecia muito comigo, eu trazia toda a culpa do universo pras minhas costas, porque na minha cabeça eu era forte o suficiente pra aguentar tudo. Até o momento em que eu não fui. E a minha cabeça quebrou quando eu comecei a ter a síndrome do pânico. Então, por que eu tô falando tudo isso? Pra dizer que essa mensagem final de Evangelion, dos 26 episódios, de que, tipo: Shinji, se aceita, se ame, muda as coisas dentro de você

pra que o universo ao seu redor comece a refletir isso… E aí rola que ele quebra todo o cenário daquele teatro e aparecem todas as pessoas falando parabéns, Shinji. É pastelão quase, é meio bobinho, de tipo, ele falar: ok, eu me odeio agora, mas isso não precisa ser sempre assim, eu posso tentar ser de outro jeito no futuro. E, a partir do momento em que ele se permite dar a oportunidade disso acontecer, aquele cenário quebra e aparece todas as pessoas ao redor dele falando parabéns e tal.

Então, eu sinto que essa mensagem final, ela poderia ser transmitida de outras maneiras, não tão pastelão quanto essa, tipo, todo mundo parabéns, superbéns. Claro que poderia. Mas a gente já teve as discussões… Eu vou ler mais sobre o assunto depois que eu assistir o filme e todas essas coisas, sobre a situação do diretor da animação e como que foi a aceitação dos episódios na época e todas essas coisas. Então eu sei que sim, tem muitos fatores externos que auxiliaram o final da animação ser dessa forma. Só que eu posso dizer pra vocês, com bastante tranquilidade, que eu saio dessa experiência positivamente. Eu acredito que Evangelion é uma obra muito esquisita, e eu fico muito feliz que a gente começou o Minha Primeira Vez com ela. Porque, sei lá, ao longo de todos esses meses,

foram poucos os momentos em que eu sabia, em que eu falei: ó, eu sei o que vai acontecer em seguida. Ah, agora vai pra esse lado. Ah, não, agora esse personagem vai falar que ele era um vilão. Não, cara. Todas as coisas que eu tentei prever, tipo, 95% era bullshit. E eu gosto disso, é legal tomar umas rasteiras das coisas que a gente consome como entretenimento. Claro que também há a oportunidade da gente consumir algumas coisas que não são extremamente confortáveis, só que é gostoso ser desafiado também. Então, assim, eu sei que muita gente não gosta desse final, eu sei que talvez muita gente vai vir gritar na minha orelha e: não, porque você tá errado de ter gostado. E tudo bem, eu provavelmente vou mandar você tomar no cu e te bloquear. Mas eu fico muito feliz que a gente viveu isso. Eu sinto que esse é um final, como eu mencionei antes, que não dá muitas respostas. Ele mostra um ponto de vista, e é um ponto de vista

extremamente distorcido, porque esses últimos dois episódios, eles são só metafóricos, e acabam até alienando um pouquinho a audiência, porque a gente realmente não recebe nada do que aconteceu no, mais uma vez entre aspas, mundo real. Mas, de certa forma, cara, eu gostei. E Evangelion, é isso aí: eu prevejo que nós teremos mais dois episódios sobre Evangelion. Por agora, o episódio 27 vai ser sobre o filme, sobre o End of Evangelion, e o episódio 28 vai ser um episódio de wrap-up. Vai ser um episódio finalizando, dando as minhas considerações finais finais, depois de ter conversado com um monte de gente, depois de ter lido todos os textos, assistido todos os vídeos, anotado todas as considerações. Aí eu venho e vomito tudo o que eu achei pra vocês. Mas esse episódio

aqui, o 26, sendo sobre o último capítulo do anime, eu finalizo ele dizendo pra vocês que eu gostei de Evangelion. É isso. Eu espero que vocês tenham curtido mais esse episódio. Se vocês quiserem me dar um feedback sobre o podcast, em todas as redes sociais, eu sou Caio Corraini. Um grande abraço e tchau, seus lindos.

Esse podcast foi produzido pela Maremoto.