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Casa do Corra
MPV Especial Episódio 01

Encontre Laura Pan

Minissérie em andamento2 de 3 episódios
14 out 2024 · 13 min

Um experimento fora do padrão.

Um detetive de calça de moletom, um bilhete embaixo da porta de madrugada e a Laura Pan esperando no apartamento 82 - só que não do jeito que eu queria.

Primeira vez por aqui? Como o programa e esta editoria funcionam
O programa

Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.

Esta editoria

Deixo no MPV Especial o que de mais inusitado e inventivo pretendo desenvolver no podcast.

Ficção? Pode. Entrevistas? Opa. Episódio inteiro sobre a discografia do LS Jack com os maiores sucessos sendo batucados na minha barriga? Pode me cobrar.

Ler a transcrição 2.063 palavras

Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.

O relógio brilhava como um farol de lambreta no canto do quarto escuro quando ouvia as batidas fortes na porta do apartamento. Era uma madrugada chuvosa e meu sono estava leve, porque eu tinha acabado de levar um coice certeiro no baço de uma cachorra enorme que roncava e babava todo o lençol naquele momento. Ela permanecia imóvel, com um sono profundo que só quem não paga um boleto na vida consegue ter. Me arrasto pelo corredor imaginando quem é que visita alguém sem avisar no meio da madrugada. Começo até a confabular sobre qual amigo que brigou com o marido, com a esposa, o rolinho, e o quão desesperada essa pessoa devia estar pra pensar no meu endereço a fim de buscar um refúgio. Abro a porta e as luzes automáticas do lado de fora me queimam os olhos.

Eu fico ainda mais puto com a hipotética briga de casal que pode ter provocado essa situação. Firmo o foco prontinho pra mandar a pessoa tomar no cu, mas, quando eu percebo, não tem ninguém. Eu fecho a porta ainda confuso, pra então notar um bilhete que parecia ter sido deslizado por baixo dela. Encontre Laura Pan. Laura Pan? Não conheço ninguém com esse nome, gente. Por que caralhos eu iria querer encontrar Laura… Ah, é. Eu sou detetive particular. Encontrar pessoas é meio que o meu negócio. Saco. Vou até o quarto e resmungo pra minha parceira piluda que eu vou sair e não tenho hora pra voltar. Ela não entende, mas finge que entende. E eu finjo que acredito que ela entende.

Escorrego dentro de um par de tênis e tento desamarrotar uma calça de moletom. Eu sou detetive, mas eu me preocupo com o meu conforto. Quem é que veste sobretudo nesse calor do inferno? De clichê já basta a maneira com que esse roteiro tá sendo escrito. Recheio os bolsos com alguns equipamentos, vasculho o móvel da sala e encontro uma lista telefônica. Sabe aquele livro enorme que tinha o telefone e o endereço de todo mundo? Pois é. A cidade é pequena, as pessoas ainda usam isso, só aceita. Vamos lá. Laura Pan. Pan. P-A-N. Igual a pizza. Ótimo, agora eu tô com fome. A gente sabe que tá com a vida sob controle quando tem fome três da manhã. Pacheco, Paiva, Paixão, Pan, aqui. Apartamento 82 do edifício Fidalga. Bom, sorte que é aqui do lado. Mas tudo é do lado, né?

Que nem eu disse, cidade pequena. Vamos lá.

Saio do apartamento trancando a porta de casa duas vezes. Uma é pra mim, a outra é pro diabo. Ao descer as escadas, eu começo a apreciar o ruído grave que ressoa de cada um dos degraus. O som vai longe e depois volta, como se o mundo tivesse tudo vazio, sabe? Quem sabe um dia ele vai estar, e ninguém me acorda mais nesse horário de corno.

A chuva havia perdido força e não passava de uma leve garoa naquele momento. Sorte, mas não demais, né? Não vamos abusar.

Acendo o cigarro amassado e tento arremessar o maço vazio numa lixeira, como se eu estivesse nos segundos finais de uma partida de basquete. Bom, a gente acabou de perder a partida, mas pelo menos não tinha ninguém pra presenciar essa vergonha. Depois de uns 20 minutos de uma caminhada calma e solitária, chego ao Fidalga. É um prédio enorme, em uma cidade de poucos prédios enormes, o que naturalmente lhe daria um certo status, mas o Fidalga não estava nos seus melhores dias. Ele era um edifício antigo, com rachaduras que revelavam algumas das cores que já haviam passado pela fachada. A minha avó sempre falava que você não consegue maquiar coisa velha, você só limpa e espera que as pessoas apreciem a velhice. Eu não gostava quando ela falava isso, porque geralmente era seguido por uma piada autodepreciativa sobre a idade dela. Ao adentrar, eu sou recebido por um longo corredor, recheado com pequenas

caixas de correio em ambos os lados. Cada gavetinha tem uma fechadura, um número e um nome. Os meus olhos vão passeando até chegar à caixa 82. Um PAN escrito em uma etiquetinha enrugada. Beleza, estou no lugar certo. De maneira relutante, entro no elevador e aperto o botão 8. Relutante porque é um daqueles elevadores vazados, com uma porta de metal que você mesmo tem que colocar no lugar pra começar a subir? Eu li uma vez no jornal que uma velhinha foi usar um desses e o cachorro colocou a cabeça pra fora da grade assim que ele começou a se mover? Bom, o resto vocês já sabem, né? Mas eu sou preguiçoso e não vou subir oito lances de escada nem fudendo. Rangidos metálicos e um zumbido mecânico compartilham o espaço comigo na subida. O carpete úmido do elevador faz splish-splosh conforme eu troco o peso do corpo de uma perna pra outra.

Choveu o dia inteiro. Faz sentido. O maquinário assassino de pequenos cachorros estaciona com um solavanco no oitavo andar e eu tento arrastar a grade de segurança sem fazer muito barulho. Que nem um elefante dançando balé na loja de cristal, vocês podem ter certeza de que todo mundo daquele prédio tinha me ouvido chegar. Essa merda dessa ferrugem. Vou até a porta do apartamento 82 e dou três batidinhas tímidas, porque eu não faço com os outros o que eu não quero que façam comigo. O que é um princípio muito digno, mas que não deve me ajudar a fazer alguém me atender no meio da madrugada. Se a Laura estiver dormindo, não são essas carícias que eu fiz na madeira que vão despertar essa mulher. Bato novamente. Com força agora. Não há motivo pra discrição depois da ópera estridente que o elevador apresentou pro prédio todo agora há pouco, né?

Nada. Uma quietude insuportável, pra ser sincero com vocês. Eu tento girar a maçaneta, mas a porta não se move. Eu já começo a pensar na dor de cabeça e até o dinheiro perdido, se for necessário arrombar isso aqui. Isso se eu arrombar, né? Porque é mais fácil que eu estoure o meu joelho, alguém chama a polícia e eles me encontrem largado, chorando no chão. Artigo 150 do Código Penal, imagina, preso e coxo. Não, tem que ter outra alternativa. Começo a vistoriar os arredores quando percebo um capacho grosso nos meus pés. O tapete tem o formato de uma pilha Duracell, com os dizeres: Aqui, só energias positivas.

Se eu não conseguir abrir essa porta, eu prometo que levo esse bagulho embora só pra jogar no lixo. Eu viro aquela aberração com um dos pés e, bom, tá lá. A chave. Faz sentido. Alguém que compra um negócio desses não deve ser brilhante, né? Eu já tô até imaginando os quadros Live, Laugh, Love na sala.

Ao invadir, eu percebo que várias luzes estão acesas, o que é esquisito num apartamento que aparentemente tá vazio ou com alguém dormindo profundamente. Normalmente eu diria um ô de casa enquanto eu caminho, pra não ser recebido a uma facada, mas sabe quando você sente que tem alguma coisa errada? E, assim, eu ainda podia ser recebido a uma facada de qualquer forma. Sigo o corredor e a primeira porta à esquerda dá pra uma sala de TV espaçosa e completamente imobiliada. Uma cacofonia de cores e, estranhamente, cheiros. Flores, ervas… Isso aqui é canela? E isso foi o que eu consegui distinguir, afinal, fumo e o meu olfato é um lixo. Sobre a escrivaninha, eu avisto o que deve ser o culpado. Um suporte de ferro fundido longo,

com quatro bastões de incenso queimando lentamente. Na ponta dele, uma figura rechonchuda, roupa branca e dourada tá sentada, sorrindo em direção à fumaça. Bom, deixa eu voltar pro corredor. Adiante, eu reparo em alguns quadros com fotos de uma família comum, com duas crianças de sorriso incompleto no colo de um casal. Uma adolescente de toga, segurando um tubo de veludo vinho. Uma senhorinha já curvada ao lado de uma árvore muito florida. Todos asiáticos. A Laura deve ser chinesa, mas o sobrenome dela já denunciava. Após ultrapassar a entrada da cozinha e do banheiro, ambos vazios, o corredor termina na única porta fechada do apartamento. Eu escuto em silêncio por alguns segundos, aproximando bem assim a orelha.

Nadinha. Aparentemente a Laura não ronca. Bom pra ela. Certa vez eu acordei sendo estapeada por uma mulher que eu tinha levado pra casa. Ela pensou que eu tava morrendo quando o meu ronco se transformou num pedido de socorro por ar, sabe? Tipo… Bom, eu emagreci um tanto desde então, mas não vem ao caso agora.

Torço a maçaneta e não tem luz saindo pela frestra. Naquele momento, além dos cheiros de flores e canela, eu sinto um novo, que infelizmente eu conheço bem demais. É pólvora.

Tateio a parede logo ao lado do batente e a claridade invade o ambiente. O quarto é tão brega quanto a sala, com um armário antigo e largo de madeira escura do lado de um espelho com borda azul bebê. Nada combina nessa merda, gente. Não é possível. E por algum motivo eu ainda tô bravo com o capacho em formato de pilha. Mas o que chamava a atenção era o leito, desarrumado e desocupado. Sabe aquele tipo de cama tão alta que uma pessoa pequena tem que dar um pulinho patético pra subir? Era uma dessas. Com os lençóis floridos jogados de lado, como se alguém estivesse se preparando pra dormir, mas lembra que não escovou os dentes e levantou puto. Ou seja, alguém acordou a Laura. Mas não fui eu. Contorno a cama devagar e eu tenho a constatação que o olfato tinha dedurado antes. Um corpo imóvel descansa entre o vão da parede e a cama. Uma mulher pequena, vestindo um pijama fino e estampado de manga longa. As mãos estão amarradas nas costas

e tem uma poça de sangue meio coagulada do lado da cabeça. Isso aqui foi uma execução. Não era assim que eu queria, mas eu acho que encontrei a Laura Pan.

Olá, Personas! Como é que vocês estão? Pô, tem alguns pequenos anos que eu não apareço aqui, né? Bom, eu espero que vocês tenham gostado desse primeiro episódio extremamente introdutório dessa minissérie que eu tô fazendo. Ela sai um pouquinho do padrão do Minha Primeira Vez, pero no mucho, né? Porque eu tô adaptando, né, nesse roteiro, o primeiro caso que eu resolvi no jogo Shadows of Doubt. Pra quem não sabe o que eu tô falando, é um jogo de detetive que foi lançado em Early Access, né, em acesso antecipado

no Steam, tem pouco tempo. Eu joguei os primeiros casos, me apaixonei, até contei sobre o jogo no Twitter. A galera curtiu. Eu falei: porra, e se eu expandir isso aqui? E se eu transformar isso aqui em uma coisa diferente, né? Usar essa base pra contar uma história? Eu tô mudando uns nomes, eu tô adicionando muito mais detalhes e tal, porque eu acho que assim pode ficar mais divertido. Fazia bastante tempo que eu não escrevia um roteiro assim. Então tá sendo muito trabalhoso, mas ao mesmo tempo muito divertido. Nesse momento eu ainda não sei quantos episódios vão ser no total, mas eu chuto que mais uns três ou quatro, pelo ritmo. Porque eu tenho as minhas anotações, mas eu tô expandindo em cima delas, como eu mencionei pra vocês. Então tem bastante coisa pra rolar. Isso aqui foi só pra colocar o dedinho na água, pra ver se eu conseguia forçar esse meu lado um pouco mais criativo a sair, porque, de novo, faz muitos e muitos e muitos anos que eu não faço um roteiro.

E talvez eu precise mudar um pouco o final do caso, porque no jogo foi meio anticlimático. Logo depois dessa minissérie, eu pretendo voltar com episódios mais tradicionais do podcast, então vocês podem ficar tranquilos. Se você gostou, apresenta o podcast pra pessoas que possivelmente possam curtir o conteúdo, e eu agradeceria pra caralho se você pudesse me dar um feedback sobre esse episódio. Então, em todas as redes sociais eu sou o Caio Corraini. Esse programa foi editado pela queridíssima Ana Luisa Mariquito. Um grande abraço, sejam bons uns com os outros e tchau, seus lindos! Até o próximo episódio.

Esse podcast foi produzido pela Maremoto.