Mensagem Não Lida
A investigação começa de verdade: o detetive sozinho com o corpo da Laura, uma cápsula .22 debaixo da cama, um crachá de gerente de marketing e uma agência vazia de madrugada - até uma mensagem não lida que piora toda a situação.
Primeira vez por aqui? Como o programa e esta editoria funcionam
Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.
Deixo no MPV Especial o que de mais inusitado e inventivo pretendo desenvolver no podcast.
Ficção? Pode. Entrevistas? Opa. Episódio inteiro sobre a discografia do LS Jack com os maiores sucessos sendo batucados na minha barriga? Pode me cobrar.
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Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.
Ligo pro meu contato na polícia, descrevo a situação, sento na cama e acendo um novo cigarro. Já prevejo tomar bronca por infectar a cena do crime, mas o estado não paga as minhas contas, eles que lutem. Odeio ser o primeiro a chegar em casos assim. Infelizmente, isso acontece com mais frequência do que eu gostaria. Agora eu preciso ficar plantado esperando alguém aparecer, porque, se eu for embora antes, eu sou taxado como suspeito, o que também acontece com mais frequência do que eu gostaria. Olho novamente pro corpo. O que caralhos você aprontou pra alguém fazer isso contigo, Laura? Que merda, que merda! É um quarteirão com queijo de merda.
Bato as cinzas na mão e por fim jogo tudo pela janela. Fico vendo voar os meus floquinhos de neve cancerígenos.
Melhor vasculhar o apartamento atrás de informações, porque, quando a civil chegar, eu sou expulso a pontapé. Inclusive, esse deveria ser o lema deles, né? Faça o nosso trabalho e seja tratado como lixo. Me agacho ao lado da Laura, calço um par de luvas emborrachadas e movo ligeiramente seu rosto a fim de observar melhor o ferimento. Um único disparo na têmpora. Pelas marcas, eu deduzo que a arma estava encostada na pele no momento da execução. Evitando tocar a mancha de sangue, me envergo pra olhar debaixo da cama torcendo pra que o criminoso tenha sido burro. E, pra minha sorte, ele foi. Estico a mão e ela me retorna com um pequeno objeto metálico. Uma cápsula que reluz 0.22 na base. Um pedacinho de chumbo capaz de destruir tantos sonhos. Deve ter sido uma bereta ou uma SIG. Pistolinha que cabe na mão de uma criança.
Parece a porra de um brinquedo, mas o resultado é esse daí. Me levanto apoiando na cama desnecessariamente alta e dou uma última olhada na mulher imóvel. Não deve ter nem 30, 35 anos.
Realmente um McFlurry de merda toda essa situação, viu?
Volto pro longo corredor e noto um caderninho do lado do telefone. Dando uma folheada, vejo diversos nomes com telefones e endereços meticulosamente organizados, com direito até a pequenos desenhinhos fofos ao lado de cada um. Desculpa aí, polícia civil, esse aqui vai comigo. Como dizia meu avô: com pouco ketchup, minha batata vai na frente. Aproveito que eu ainda tô de luva e resolvo dar uma parada na cozinha pra ver se tem algo pra beber. Ó, não vem me julgar, não, que a única pessoa que tinha direito de se incomodar comigo, infelizmente, não tá mais em condições de argumentar no momento. Acendo a luz e temos mais um cômodo horroroso à nossa disposição. Armários verde catarro, panelas envolvidas num esmalte rosa claro, geladeira retrô avermelhada que tremia tal qual um chihuahua. Uns anos atrás, eu tinha uma namorada que morava num apartamento que apareceu na revista Casa e Jardim.
Era insuportável. Não podia uma almofada fora do lugar, e até as roupas dela combinavam com os móveis. Eu queria colocar bendita pra viver aqui um mês, mulher ia enlouquecer. Abro o refrigerador e, além de uma garrafa de leite, resto de arroz e o que parece um refogado num tapaué, só uma caixa de bebida à base de soja com gosto de pêssego. As pessoas têm uns gostos muito estranhos, né? Me recosto na pia e, enquanto resmungo que talvez o leite puro seja melhor do que esse troço que me desce a garganta, vejo um crachá tombado sobre o balcão. Laura Pan, gerente de marketing. Sprint Comunicação. Bom, já sei qual que é minha próxima parada. Saio do apartamento e me sento ao lado do capacho em formato de pilha. Realmente, hoje só energias positivas, hein? Penso na minha cachorra roncando na cama.
Penso em mais uma parcela do empréstimo que eu não vou conseguir pagar. No apartamento da Casa e Jardim, que não era casa e nem tinha jardim. Vinte minutos se passam quando eu escuto o ranger do elevador retornando até o térreo e fazendo seu caminho estridente novamente até mim.
Dois agentes ficam visíveis após brigarem com a grade de segurança. Não reconheço nenhum dos dois. Hoje é dia, viu? A frente, caminhava um homenzarrão gordo e piludo, que parecia soltar desnecessariamente o peso do corpo inteiro a cada passada que dava. E, seguindo vagarosamente, um menino que sinceramente parecia ter acordado atrasado para a prova do Enem. O diálogo que rolou em seguida pode ser resumido da seguinte maneira. Entrou como? Chave debaixo do tapete. Mexeu em alguma coisa? Não. Pegou alguma coisa? Não. Cê precisa acompanhar a gente pra DP. Nem fudendo. Vai pra onde agora? Não te interessa. Galera lá passa pano pra ti mas eu conheço gente da tua laia. Ah, chupa meu saco.
O jovem, visivelmente desconfortável com a discussão, se adianta e, depois de procurar por algo nos bolsos, me entrega um cartãozinho com o número pessoal dele. Ah, isso aqui é pra se as coisas ficarem feias, ele sussurrou pra mim. Como logo consegui me livrar do interrogatório, volto pro elevador já abrindo o caderninho a fim de descobrir onde ficava tal Sprint Comunicação. Era 4 e meia da manhã, horário em que apenas as pessoas perdidas perambulam por aí, como mariposas em busca de um poste pra chamar de seu. Algumas estão mais perdidas do que as outras, procurando até criar confusão, mas eu carrego comigo a melhor manteiga social: o maço de cigarro.
Recomendo que você não fume e, por favor, não faça isso, evite ser burro como eu. Recomendo que você carregue um contigo. Assim que alguém suspeito começar a se aproximar num horário inóspito, toma a dianteira e oferece o fumo. Você vai ver, é como cortar o fio certo de uma bomba: você desarma na hora. Percorro alguns quarteirões e me posto diante de um prédio todo espelhado. Esse monte de vidro deve servir só pra matar passarinho, porque, com o sol que faz nesse lugar durante o dia, as pessoas devem sair dali cozidas. Novo empreendimento: micro-ondas gigante. Me aproximo pelo outro lado da calçada e observo a entrada de porta automática, catraca e segurança mal encarada. Nenhum lugar com catraca passa uma vibe legal, né? Escritório, padaria gourmet, evento superfaturado…
Sempre me sinto tipo o gado quando tenho que me aglomerar na frente dessas portinholas esperando minha vez de passar. Posicionado do lado de uma lixeira metálica de condomínio rico, eu aguardo a movimentação do emburrado da portaria, porque eu não posso arriscar a possibilidade da foto da Laura aparecer num monitor quando eu tentar entrar utilizando o cartão dela. Tão logo ela escapa pro banheiro, eu escapo pra dentro do prédio. Bato o olho rapidamente no painel de vidro fosco onde estão os nomes das empresas instaladas no edifício e eu vejo que a Sprint Comunicação fica no quarto andar. Escorrego pra dentro de um dos elevadores e começo a fazer cara de “é inacreditável que meu chefe escroto me mandou vir pro escritório agora”. Pra, sei lá, caso a segurança me espie pela câmera. Segundo o monitor que rotaciona aquelas notícias, o prefeito que desviou verba tá em primeiro nas pesquisas.
Todo dia eu tenho mais motivo pra querer ir morar no meio do mato criando porco. As portas se abrem e eu tô de frente pra agência. Pra minha sorte, e surpresa, completamente vazia. Não foi hoje que um publicitário coitado virou a madrugada trabalhando achando que a peça dele merecia um Leão de Cannes.
A empresa é daquelas irritantemente moderninhas. Com um puff que ninguém senta, pimbolim que ninguém joga e quadro de super-herói que ninguém gosta espalhados pelas paredes. Ninguém vírgula, já que o dono deve adorar todas essas coisas. A Laura era gerente de marketing. Isso garante uma sala privada hoje em dia? Eu não sei mais. Já vi muito gerente pejótinha 2500. Acendo a lanterna e vou vasculhando as mesas, buscando qualquer detalhe que me garanta uma identificação. São muitos os cacarecos posicionados ao lado dos computadores pra tornar a experiência do dia a dia em algo mais palatável. Planta de plástico, bonequinho, foto de bicho e pessoas sorridentes. A gente costuma trazer um pouco de casa pro trabalho pra não enlouquecer pensando que vai ter que fazer isso até morrer. Eu lembro dos meus dias como policial, e a única coisa que me faz falta é o vale refeição, pra falar a verdade.
Ao longo do corredor de máquinas adormecidas, com um ou outro monitor ainda preso no papel de parede padrão, avisto um rosto conhecido e um porta-retrato. E a Laura, fazendo uma careta enquanto recebe um beijinho no rosto de outra mulher. Movimento de leve e o mouse do computador que desperta e… tá lá. Outra imagem da nossa vítima, mas com um espaço reservado pra senha logo embaixo. Tem dia que a noite é foda mesmo, né? Começo a fuçar a mesa, sem muita esperança, já que a gente estabeleceu que a Laura era irritantemente organizada, tendo como base a agenda que eu surrupiei no apartamento dela. Mas, pro meu alívio, na segunda gaveta da estação de trabalho, encontro um comunicado impresso, avisando que, como estabelecido nas políticas da empresa, todas as senhas da Sprint Comunicação foram alteradas após o período combinado de seis meses.
Ó, fica a dica aí de que isso é uma péssima decisão, já que assim todo mundo desiste de decorar a porra da palavra-chave e o que era uma ação de segurança sai num cavalinho de pau na direção oposta. Tá. Senha, senha, senha… 0451. O monitor é invadido pela luminosidade de um desktop decorado em cores pastéis. Abro o navegador e encontro o e-mail profissional da Laura, mas nada na caixa de entrada me chama a atenção. Promoções de viagem, pedidos de aprovação da campanha pra uma farmácia, alguém reclamando que a versão pirata do Photoshop não abre mais. Cara mete pebolim no escritório, mas não paga o Photoshop. Depois de vasculhar as guias remanescentes e outros programas utilizados recentemente, vou perdendo as esperanças de tirar qualquer proveito da viagem até aqui.
Endireito a coluna com um resmungo e o meu corpo reclama pelo sono interrompido. Assim que me movimento para travar novamente o computador, vejo um ícone verde no canto inferior da tela com aquele número de notificações novas. Ao clicar, enfim sou presenteado por algo minimamente útil. É tipo um agregador de mensageiros, provavelmente integrado aos que a Laura utilizava no celular. Em meio aos diversos chats, encontro sua conversa com Rúbia, a moça que lhe dava o beijinho no rosto no momento eternizado pelo porta-retrato. As mensagens se estendem por meses, findando em um diálogo breve, mas que pode esclarecer um pouco do destino injusto de uma vida interrompida. Laura, pedi minhas contas. Preciso sair da cidade. Eu recomendo que você faça o mesmo. Me perdoa. Rúbia, você tá me assustando. Logo eu tô aí. Por favor, não faz nada antes da gente conversar, tá?
Laura, me escuta. Sai de casa agora. O Heleno diz que vai atrás de você. Se qualquer pessoa chegar dizendo que me conhece, não abre a porta. Vai pra algum lugar seguro. Não vem pra cá. De novo, me perdoa. Essa última mensagem constava como não lida. Minhas mãos estão geladas e minha boca seca. Abro a agenda e encontro o endereço da Rúbia. Algo me diz que, se eu não for rápido o bastante, não vou ter visto só um corpo essa noite.
Olá, Personas! Como é que vocês estão? E essa frequência de podcast, hein? Não acostuma, não. Bom, eu espero que vocês tenham gostado de mais um episódio dessa minissérie. Lembrando aos desavisados que eu tô adaptando em um roteiro o primeiro caso que eu resolvi no jogo Shadows of Doubt. É um jogo de detetive, ele ainda tá em acesso antecipado no Steam, mas, se você se interessou, vai dar uma olhada. Se você gostou, apresenta o podcast para pessoas que possivelmente possam curtir o conteúdo. Se vocês quiserem dar um feedback sobre o episódio, em todas as redes sociais eu sou o Caio Corraini. Esse episódio, como todos os outros dessa temporada, foi editado pela Ana Luisa Mariquito. Um grande abraço, sejam bons uns com os outros e tchau, seus lindos!
Esse podcast foi produzido pela Maremoto.