Chico Bento: Arvorada
O episódio de estreia de um formato mais contido por aqui.
Na HQ Chico Bento Arvorada, temos o ipê que floresce e cai de um dia pro outro, e o garoto aprendendo do jeito difícil que as coisas boas acabam.
Primeira vez por aqui? Como o programa e este formato funcionam
Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.
O Pocket é aquela conversa com seu amigo sobre uma obra que não precisa de vinte episódios para ser aproveitada em sua completude.
Rápido e indolor, mas ainda repleto de sentimento.
Ler a transcrição 2.749 palavras
Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.
Olá, Personas! Meu nome é Caio Corraini e estamos todos com saudades de casa, né? Porque tá começando o Minha Primeira Vez Pocket. Mas por que Pocket, Corraini? Bom, ao contrário, né, de quase 30 episódios falando sobre a mesma coisa, que é o que eu vou fazer com Evangelion, esses vão ser programas mais contidos, né, em que eu vou tentar discutir sobre uma obra em apenas um episódio, ou poucos episódios, né? Eu não vou garantir aqui que vai ser sempre um, porque eu posso muito queimar minha língua. E, nesse episódio de estreia, eu vou discutir sobre a HQ Chico Bento Arvorada, do Orlandeli.
Essa foi a primeira HQ desse selo, né, Graphic MSP, que eu li. Ela me foi dada de presente, né, pelo Marx, que é um grande amigo meu, na CCXP do ano passado. E ela é uma HQ simples, né, mas, nossa, ela fala de tanta coisa. E eu queria começar, né, discutir sobre tudo isso, dando uma contextualização pra vocês, né? Porque, quando eu era pequeno, o Chico Bento era o meu personagem favorito, né? Porque ele era próximo e fantasioso ao mesmo tempo, né? Porque eu morava no interior, né, mas eu morava na parte urbana do interior. Eu acho que muita gente já sabe, porque eu já contei sobre isso em vários lugares e tudo mais. Mas eu digo que eu sou de Mococa. Eu nasci aqui em São Paulo, na capital,
mas eu fui pra Mococa, pra uma cidadezinha do interior, muito cedo, quando eu era muito criança - eu fui pra lá com 6 anos. Então eu digo que eu sou de Mococa, porque, querendo ou não, eu cresci e me desenvolvi lá. Eu sou cria daquela terra, eu sou cria dos meus avós. Muito do que eu sou até hoje é influenciado diretamente pelo que eu vivi lá. Então, por mais que no documento esteja lá escrito São Paulo, bicho, eu sou de Mococa, sabe? Então não se deixe enganar que o meu sotaque perdido… Que, inclusive, isso é outra coisa que eu já contei em vários lugares, mas vamos contar aqui também, porque fica registrado: eu fiz fono pra perder o sotaque. Porque, quando eu tava fazendo faculdade de jornalismo, eu me apaixonei por rádio, queria muito trabalhar em rádio. O meu objetivo era trabalhar na CBN.
Obviamente que eu também tinha o plano de ser jornalista de videogame, trabalhar com tecnologia e tudo mais, mas eu acabei me apaixonando por rádio. E a minha professora na faculdade, ela falou: bicho, eu sinto te dizer isso, mas, se você quiser trabalhar em rádio aqui em São Paulo, tu precisa perder esse sotaque. Toca o caipira fazer fono pra perder a porta, a porteira. Porque, ao mesmo tempo em que eu não me arrependo de ter feito - afinal de contas, infelizmente é uma realidade que as pessoas, elas te olham diferente, elas te julgam diferente dependendo da sua cor, de como você fala, de que órgão genital você tem no meio das pernas -, não me arrependo de ter feito a fono, eu acredito que sim, algumas portas se abriram pra mim por conta disso. Mas, ao mesmo tempo, eu sei que isso
é um pouco falso, porque é só eu ficar, sei lá, uma semana no interior que, bicho, volta inteiro, assim, volta meu sotaque completamente. Mas, como eu tava dizendo, né, eu sou do interior, mas eu era da parte urbana do interior. Mas, mesmo assim, que nem eu tava mencionando, né, que as histórias do Chico Bento, elas eram ao mesmo tempo muito, muito comuns e fantasiosas, né? Porque eu morava na cidade, mas, bicho, alguns quarteirões que eu andava, eu já estava rodeado por Zé Lelé, sabe? Mas, morando no interior, eu reneguei o sítio, né? Eu tinha medo do mato. Porque a gente tinha uma chácara e tínhamos várias árvores de várias frutas, tínhamos bichos lá. Meu avô cuidava da chácara inteira, né? Sozinho. E ele sempre nos convidava pra ir junto com ele, pra aproveitar o lugar,
porque eu sinto que era uma coisa que ele amava muito, né? Ele realmente, por mais que ele fosse aposentado, ele tava naquele lugar todos os dias. Pra capinar um lote, pra dar de comer pro cavalo, pra trazer banana pra gente, trazer laranja, trazer mexerica, trazer pitanga, trazer, sabe, tudo que você puder imaginar tinha naquele sítio. E eu renegava isso, eu evitava ir, porque eu realmente tinha medo. Tinha medo, assim, era muito… O concreto, ele é seguro, né? Porque você sabe que ele vai ser reto todos os dias. E o meio do mato, não, né? Você nunca sabe o que vai ter ali, o que não vai ter. Ao mesmo tempo que você pode se surpreender positivamente, né - você pode ver uma ave muito bonita, pode pegar a fruta mais gostosa direto no pé e tudo mais -, você também pode encontrar cobras, você também pode encontrar várias coisas, sabe? Que já aconteceu, já pisei do lado de uma coral.
E foi complicado, né? Então, eu acabei me afastando disso. Então, ler esse quadrinho foi ao mesmo tempo gostoso e bem dolorido, né? Porque ele fala sobre a morte, né? E como as coisas podem simplesmente ir embora quando a gente não espera. Eu perdi o meu avô tem algum tempinho, né? E de vez em quando eu ainda me pego, né, pensando nele. Meu avô, ele adorava falar sobre as mudanças da cidade, né?
Ele gostava muito de discutir quem tava construindo o quê, quem tava abrindo loja, quem tava comprando lote. E eu não conhecia nenhuma daquelas pessoas que ele falava, né? Tipo: ah, ali do lado do tchãozinho, e cê vira ali, sabe ali onde fica, sei lá, a loja de imóvel do seu Afonso. Eu falava: sei, sei, claro que eu sei. Não sabia porra nenhuma, mas eu adorava ouvir ele falar, né? Até que chegava um ponto em que: tá bom, né, vô, tipo, você tá falando sobre um monte de coisa que eu não conheço, que não faz parte da minha vida, né? E aí eu sempre dava uma desconversava: pô, vô, tal, tem que fazer um negócio, vou sair, não sei o que tem. E a HQ, ela começa com o Chico ignorando, né, e se afastando da avó, quando ela o chama, né, pra ver aquele ipê florido. Eu já vi vários ipês na minha vida,
e o que me chama mais atenção, na verdade, era o monte de flor que fica esparramada no chão ao redor deles e também o cheiro. Tem um cheiro muito forte. E, sinceramente, eu não lembro se as flores caíam tão rápido quanto foi no quadrinho, mas eu sei que a motivação da história é mostrar que as coisas boas, elas podem acabar, e que por isso a gente precisa dar valor. Tanto que, quando o Chico vai ver a árvore no dia seguinte, já se foi, já acabou, tudo caiu, tá só os galhos pelados ali. É bonito que isso ensina algo pro Chico. Ele vive o próximo ano mais intensamente que o anterior. Até como o Orlandeli escreveu: o menino tinha um sorriso a mais no rosto. Cara, isso me pegou no sentido de que: poxa, que bom, né?
Porque geralmente esse tipo de história, a moral, ela só é aprendida no final e pela dor, né? É claro que, dessa vez, nesse momento da história, ele precisou sofrer um pouco pra poder aprender alguma coisa, né? Afinal de contas, ele ignorou a avó e, no dia seguinte, infelizmente, não tinha mais ipê pra ver. Mas ele aprendeu algo, e a gente vê ele aproveitando essas coisas, né? A gente vê ele nadando no rio, a gente vê ele indo pescar com o Zé Lelé, mesmo sabendo que não vai pegar porra nenhuma, só pela presença, né, só pela companhia do Zé, e também o lugar que eles vão pescar e tal. Inclusive, né, uma coisa que eu preciso destacar é que eu achei que o português, entre aspas, errado do quadrinho, né, ele fosse me incomodar, mas na verdade ele ajuda tanto a história.
Porque fazia tanto tempo que eu não lia nada do Chico, e no primeiro, tipo, i coisa i tar, eu tomei um soco de nostalgia e voltou tudo, sabe? Então isso foi muito gostoso, assim, foi como se eu estivesse reencontrando algo. Então ter esse português caipira ligando a minha memória afetiva do Chico Bento com essa obra atual foi muito gostoso, foi muito forte pra mim. Mas, voltando pra história, né: o que eu super temia desde o começo acaba acontecendo, né? O ano passa e o Chico, ele chama a avó dele pra ver o ipê de novo, né? Já tá na época e tudo mais. Mas a avó dele, ela passa mal e é preciso chamar o médico, né? E, assim, a morte, ela vai chegar pra todo mundo. É aquele papo, né, de que é a única certeza de que a gente tem.
Mas ainda dói, né? Quando ela finalmente vem. Porque é só nesse momento que caem realmente as fichas. Inclusive, o que me derrubou no quadrinho, e eu comecei a chorar, foda, foi quando ele ouve o médico dizendo que tudo vai depender de como a avó dele reagir aquela noite. E ele associa isso à morte da irmã. Porque eu acredito que já está estabelecido para todo mundo de que o Chico teve uma irmãzinha e que acabou falecendo quando criancinha mesmo. Tanto que tem aquela história da estrela e tudo mais, de que o céu tava ganhando mais uma estrela, pra mostrar realmente a morte da irmã dele. E é foda, porque quando ele fala “de novo não”, puta, mano, aperta demais o coração. Eu só tive que lidar com a morte
de pessoas próximas duas vezes na minha vida. A do meu avô, que eu já mencionei aqui, e a da minha mãe, quando eu tinha 5 anos. A da minha mãe, sinceramente, eu não lembro. É engraçado como o nosso cérebro funciona. O meu simplesmente decidiu, tipo: você não precisa dessa informação. E apagou tudo. Apagou todo um ano da minha memória. Então, quando o meu avô se foi, eu não tive esse “de novo não”, porque pra mim era a primeira vez que eu vivia aquilo. E doeu demais. Demais, demais, demais. Então eu achei muito bonito que, mesmo depois desses momentos mais duros, a história em quadrinho, ela tem como objetivo bater nessa tecla de que o importante é valorizar os momentos bons do lado de quem a gente ama, fazendo o que a gente gosta - que é ele aceitando ir roubar goiaba com o Zé Lelé.
Inclusive, o Zé que dá uma surra de bom senso nele, né, perguntando onde que não comer goiaba ia ajudar a avó dele naquele momento. Que isso é uma coisa também que ressoa comigo, né? Porque, no momento em que as pessoas estão em luto, todo mundo acha que é pra deixar a galera sozinha e sofrendo e não sei o que tem. E claro, né? Cada um lida com o luto de uma maneira diferente, né? Cada um se encontra naquela jornada, né? De negação, de… Eu não lembro exatamente os passos, né? Mas tem a negação, tem você negociar, né? Até você chegar na aceitação. E cada pessoa, ela tem uma velocidade diferente com que anda nessa jornada. Mas uma coisa que pra mim é muito esquisita: parece que os familiares, as pessoas que estão ao redor
de quem morreu, estão tóxicos naquele momento do luto. Que tipo: você não fala com eles, você só fala o necessário, fala só o mínimo e tal. E isso também eu sentia um pouco de mim também. Eu lembro de quando eu tava lá velando meu avô: a minha fase de negação, ela foi muito longa, cara. Eu tava muito revoltado. Eu tava muito, muito revoltado. Então eu chorava, eu chorava o tempo todo, assim. 100% do velório eu chorei. Todas as horas que eu tava lá, eu chorei.
E era um choro de muita raiva, era um choro de muita… Era um choro muito doído, porque eu não tenho um relacionamento muito bom com a minha família, né? Eu não sou a pessoa mais família do mundo. Tanto que, hoje em dia, que eu realmente considero próximos e tudo mais, tem alguns primos, tem alguns tios, mas principalmente a minha avó e o meu irmão mais novo, né? E mesmo pra eles eu não sou uma boa família. Eu ligo pra minha avó muito de vez em quando e chamo meu irmão pra sair pra comer um hambúrguer muito de vez em quando também. Eu sou uma péssima pessoa nesse sentido. E esse quadrinho, ele ressoa comigo nesse sentido também: de que a gente precisa aproveitar esses momentos
com quem a gente gosta como se fossem os últimos. Mesmo naquele papo super piegas do Renato Russo, mas é verdade, é verdade. Então o Chico sai pra roubar a goiaba com o Zé Lelé, ele pede pra Rosinha ir provar laranja com ele depois de ter sido um pouco grosseiro com ela. De novo, eu sinto que eu me comparo a ele. Porque eu também, por mais que nesse momento ele só esteja preocupado com o que está acontecendo, ele também, né, acaba descontando, acaba estourando. E eu sinto que eu também fiz isso, né, na minha hora de luto. Então é muito complicado, porque você tá com seus sentimentos, eles estão em todos os lugares ao mesmo tempo, né? Você tá ao mesmo tempo feliz por tá vendo algumas pessoas que você não viria em outras situações, o que é esquisito, né,
você utilizar o velório das pessoas pra encontrar algumas outras que você não vê tem tempo. Sei lá, cara. É muito bizarro, tudo muito bizarro quando a gente fala desse assunto. Eu gosto que, mesmo com a parte sobrenatural da aparição do lobisomem, do saci, do curupira, do boitatá… Inclusive, boitatá, que branding horrível, né? Eu sempre falo isso, eu sempre vou falar, até eu morrer. Porra, é uma cobra pegando fogo, porra. Boi? Ah, ok. Inclusive, eu, como criança do interior, eu super já vi lobisomem. Mas tudo isso é uma metáfora pra deixar a mensagem mais forte. E a mensagem mais importante é essa: vai viver. Porque o tempo passa, as coisas mudam e as pessoas morrem. Então, eu sei que
não faz muito sentido a gente sempre repetir o óbvio, mas, se é tão necessário a gente repetir, é porque talvez não seja tão óbvio. Então: se você ama, fala eu te amo. Se você tá sentindo falta de ver alguém, liga pra essa pessoa, chama essa pessoa pra sair. Se você se arrepende de alguma coisa, se você precisa pedir desculpa pra alguém, não fica com isso dentro de ti não, velho. Não faz isso com você mesmo. Não faça isso consigo mesmo. Porque isso é uma coisa que eu aprendi a duras penas, assim. Eu sempre fui muito orgulhoso. Muito. E ainda tô tentando desconstruir isso, eu tô tentando quebrar um pouco isso, mas eu sempre fui muito, muito orgulhoso. É aquele papo, né: você prefere ser feliz ou você prefere ter razão? Eu sempre preferi ter razão. Sempre.
E isso fechou tantas portas com tantas pessoas incríveis que passaram pela minha vida. Então não comete esses erros não, cara. Independente de onde você estiver na sua vida. Porque, né, eu tenho alguns dados, né, de quem escuta esse podcast: eu sei que tem gente muito nova, eu sei que tem gente bem mais velha do que eu ouvindo isso. Então não perde tempo, bicho. Por favor, não perde tempo. Eu recomendo demais esse quadrinho. E eu espero mesmo que, mesmo sabendo da história, vocês ainda corram atrás dele. Porque é uma obra que todo mundo precisa ter em casa, pra poder abrir de vez em quando e bater nessa tecla de novo. E lembrar esse óbvio. E manter essa certeza viva dentro da gente: não perde tempo.
É isso. Foi pesado. Eu espero que vocês tenham gostado desse formato. Ele não vai ter uma frequência fixa, mas, sempre que possível, eu vou tentar produzir sobre coisas diferentes. Se vocês quiserem dar um feedback sobre o podcast, em todas as redes sociais eu sou Caio Corraini. Um grande abraço e tchau, seus lindos!
Esse podcast foi produzido pela Maremoto.
Casa do Corra