Emicida: AmarElo
Total fora da zona de conforto: AmarElo, do Emicida, o primeiro álbum de rap que eu ouvi do início ao fim, discutido faixa a faixa.
No caminho: o guri que recitou Diário de um Detento na minha quinta série, o metaleirinho que tratava samba como música do inimigo e por que AmarElo, a faixa, é impossível de ouvir sem chorar.
Primeira vez por aqui? Como o programa e este formato funcionam
Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.
O Pocket é aquela conversa com seu amigo sobre uma obra que não precisa de vinte episódios para ser aproveitada em sua completude.
Rápido e indolor, mas ainda repleto de sentimento.
Ler a transcrição 3.803 palavras
Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.
Olá, Personas! Meu nome é Caio Corraini e estamos todos ainda tentando levantar desse atropelo, né? Porque tá começando o Minha Primeira Vez Pocket. Como eu expliquei na edição passada, ao contrário de quase 30 episódios falando sobre a mesma coisa, que é o que tá acontecendo com Evangelion, esses vão ser programas mais contidos, em que eu vou tentar discutir sobre uma obra em apenas um episódio. E hoje eu vou sair total da minha zona de conforto e discutir aqui o álbum AmarElo, do Emicida.
Antes de começar a falar do álbum - que vocês já devem estar imaginando o que eu achei dele -, eu queria dar uma contextualizada aqui. Eu era um guri muito eclético em relação à música quando eu era criança. E, quando eu digo eclético, é eclético de verdade, assim. Não é esse povo que: nossa, eu gosto de tudo, meu. Daí começa a falar o nome de 15 banda indie que tem o mesmo som de fila de banco. Não. Eu ouvia Pavarotti, eu ouvia Djavan, eu ouvia Jive Bunny and the Master Mixers. Era uma salada muito absurda. Mas a minha vida mudou quando eu conheci o Queen. Queen era diferente e poderoso, sabe? Assim, tinha música animada, música triste, música leve, pesada, simples, complexa. Era muito pra cabeça daquela criança. E, dali em diante, eu só ouvia o que tivesse uma guitarra junto. E, assim, foram muitos anos assim, né?
Com direito àquele tipo de pensamento fechado que só o metaleiro tradicional consegue ter. O que eu gosto é música, o resto não.
Eu não sei exatamente quando a ficha de que isso era bobagem caiu, mas hoje eu posso dizer que meu leque de opções se abriu de novo. E assim a gente chega no álbum do Emicida, que, sendo muito sincero, foi o primeiro álbum de rap que eu ouvi do início ao fim. Eu já havia sido atingido antes por algumas músicas do MV Bill, Pavilhão 9 e, óbvio, do Racionais, mas eu tinha algo que sempre me afastou do estilo. Eu achava que era errado curtir rap, porque eu era branco. E, ok, eu já tive essa discussão com o Load e a gente chegou à conclusão de que eu sou só branco no Brasil, mas ainda assim eu achava que não me pertencia, que eles não estavam falando comigo. Mas, pensando mais a respeito - afinal de contas, para esse podcast eu sentei, ouvi o álbum, pensei em várias coisas, anotei aqui algumas coisas no roteiro -, nesse processo
todo de criação do programa, eu lembrei de um acontecimento que rolou comigo na minha quinta série. Um guri da minha sala, o Fabrício, ele pediu licença pra professora pra recitar um poema na frente da galera. E, assim, tava todo mundo olhando pra ele muito esquisito, porque, meu, quem que pede pra fazer isso? Mas beleza, ele foi, parou na frente de todo mundo e começou a falar bem devagar: São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8 da manhã. Ele recitou Diário de um Detento inteira. E ele, assim, ele não tava, né, cantando e tal - ele tava recitando, era um poema. E, mano, a classe toda ficou paralisada ouvindo. E, naquele momento, eu vi muita gente se ligando com o que ele falava. Porque o irmão do Leonardo era ladrão e todo mundo sabia. Porque, ao invés de Parelheiros, Moji, Jardim Brasil, a gente tinha
a Vila Carvalho, Cohab 2, Santa Rosa. Eu sempre estudei em escola pública, então, conforme a gente foi crescendo, foi aparecendo o PM, foi rolando geral no muro, foi vendo amigo largando pra vender beck, sabe? Então tudo tava perto. E hoje fez sentido: era pra mim também. Não tinha guitarra, mas era pra mim também.
Bom, falando de AmarElo agora: eu, sinceramente, não sei como falar de música, porque eu não tenho nenhum conhecimento teórico, né? Eu não sei o que é um tom, eu não sei o que é uma oitavada - eu nem sei se isso existe, mas me veio na cabeça agora. E, principalmente no rap, no hip hop, eu não tenho referência, né? Então ursem comigo, né, bear with me, e vamos experimentar o seguinte: eu vou ouvir a música e logo em seguida eu vou falar sobre o que ela me fez pensar, sobre o que ela me fez sentir, beleza? Então bora. Princípia. Eu acho que esse álbum é bem dividido em dois.
A gente tem o MC da Combativo, Revolucionário, e o MC da Papai Zen. Essa primeira música, pra mim, é muito uma união dos dois, porque ele alterna bastante entre um tom mais agressivo e algo mais de boas. Inclusive, essa música tem uma das minhas frases favoritas do álbum, que é, mano: crer que o ódio é a solução é ser sommelier de anzol. Porque, quando a gente acredita que algo destrutivo como o ódio pode ser uma solução, é quase ter uma dor de cabeça e achar que um tiro vai resolver o seu problema, sabe? Assim, vai. Mas não, não vai. Não adianta bombardear tudo e você ser o rei dos destroços, sabe? A gente tem que tentar construir as coisas junto, com perdão, empatia, união.
E eu sei que é difícil, que isso vindo de mim pode ser até um pouco irônico, né? Dada a minha natureza colérica - quem me acompanha no Twitter sabe. Mas a gente sabe que essa é a resposta certa. A música é excelente e a gente termina com esse texto lindo, né, do pastor Henrique Vieira, batendo justamente nessa mesma tecla: de que sem o amor seria tudo em vão. Então eu acredito que esse é um excelente jeito de começar um álbum. A ordem natural das coisas, como a Cris bem disse no Mamilos que elas gravaram com o Emicida - inclusive, vão lá ouvir, que é muito melhor
ouvir ele mesmo falando desse álbum do que eu. Mas depois vocês voltam. Essa música é uma ode aos invisíveis. Porque, independente do que aconteça, o mundo continua girando e o sol vai nascer. Enquanto ele não expandir, engolir a gente, né? Mas, enquanto isso não acontece, essa é a ordem natural das coisas. E, pra que as coisas continuem acontecendo, a gente depende dessas pessoas ditas invisíveis, né? A motorista do busão, o tio da padaria, a gurizada indo pra escola. Porque são eles que vão assumir essa bagunça depois da gente. Esse é o tipo de música que eu mais aprecio quando escuto coisa em português, né? Porque, com a globalização blá blá blá, dominação americana, a gente tende a ouvir muita coisa em inglês no dia a dia. Agora me fala qual música de metal espadinha que vai falar do feijão crescendo no algodão. Essa música é um abraço.
Pequenas alegrias da vida adulta. Aqui a gente tem o MC da Full Papai Bobão, e é mó maneiro ver isso. Porque, assim, eu lembro que eu vi uma entrevista com o Brown uns tempos atrás, e ele falava que xingaram ele quando ele fez aquelas músicas mais românticas e tudo. Daí ele fala algo do tipo: eu não sou bravo o tempo todo, sabe? Que é mó difícil, né - a gente vê o Brown com toda aquela banca, tipo, com aquela voz grossa pra caralho. Mas é isso, sabe? Tipo, eu trabalho com podcast, mas não é só isso que eu sou. Você, sei lá, você pode ser lutadora de jiu-jitsu e chegar em casa pra tricotar, sabe? Eu tô jogando altas coisas aqui pra cima agora,
mas vocês entenderam o que eu quis dizer. Então eu tô curtindo muito essa tridimensionalidade do Emicida. Não só em relação ao tipo de conteúdo que ele escolhe pras letras, mas também no quão eclético musicalmente é esse álbum. Eu sei que eu tô me esquivando bastante de falar da música per se, mas por vergonha de falar merda. Mas foram três faixas completamente diferentes, cada uma com a sua pegada, incitando emoções diferentes, que é algo que super me pegou de surpresa. E, assim, por puro preconceito, eu admito, né? Eu tava esperando só porrada do início ao fim, e eu ganho uma canção sobre promoção de fralda e tampa de tupperware. É maravilhoso, sabe?
Quem tem um amigo tem tudo. Quem diria que eu, Caio Corraini, seria impactado pela primeira vez por Zeca Pagodinho com 32 anos na cara. A vida, meus amigos, ela não cansa de nos surpreender. Assim, eu vou dizer que não gosto tanto dessa música porque realmente não é a minha praia esse samba mais clássico, tipo Zeca, tipo Martinho, Alcione, a Bete, o Bezerra. É uma coisa muito do meu tio - inclusive, um abraço, Cid. Até que um dos meus primos, ele tocava, né, cavaquinho e tal. Eu nem sei se ele continuou tocando ou se ele abandonou isso. Então, sendo o Chico Treva que eu era,
sempre rolou esse embate, né, nas festas da família, né, quando elas aconteciam. Porque tocava o samba, o pagodão, mas o guri chato aqui tava querendo trocar o CD escondido por, sei lá, Dimmu Borgir, sabe?
Daí eu acho que é mais por isso, né, que eu até hoje tenho essa resistência, porque era a música do inimigo, né? Imbecilidade do caramba. Mas, ainda assim, eu fico feliz de ver grandes artistas atuais sempre trazendo consigo as referências e as pessoas que eles respeitam para os projetos. Né, esse ano eu ouvi o Caetano pela Fresno, eu ouvi o Ney Matogrosso pela Scalene, e eu acho isso foda, sabe? De verdade. Essa interação entre as gerações, ela mostra que a música brasileira, ela não para. Nunca parou. Paisagem.
Essa é a música mais curiosa pra mim de todo o álbum. Porque, se você leva em consideração apenas o ritmo e o refrão, ela é uma música super soft, calminha e tal. Mas daí você começa a prestar mais atenção na letra e parece que ele está descrevendo um lugar de guerra, e como se fosse uma pessoa sendo influenciada a pensar que está tudo bem quando não está. Igual aquela tirinha do tudo normal, nada está acontecendo, sabe? Mas, assim, o que mais pega é essa parte: acende a brasa, esfregue as mãos, desabotou o botão da camisa, sinta-se em casa, imagina o verão, ignora a radiação da brisa. É assim, vamos lá. Talvez eu esteja sendo aquele mongo que leva as coisas literalmente demais. Mas, quando ele fala para a pessoa aproveitar a brasa para aquecer as mãos enquanto pensa no verão, é como se fosse um inverno bem forte.
Daí ele fala para ignorar a radiação da brisa, o que nos leva ao inverno nuclear? Bom, para quem não sabe, o inverno nuclear é um fenômeno que, segundo alguns modelos teóricos, o clima do planeta poderia voltar a uma nova era do gelo caso a gente tivesse uma guerra nuclear. Mas, assim, continuando a letra, ele diz: sintoniza o estéreo em seu velho jazz, pra um pesadelo estéreo até durou demais, reconheça sério que o mal foi sagaz, como um bom cemitério, tudo está em paz. Daí eu pego o quê? Que as coisas realmente duraram demais pelo tanto de merda que a gente faz no mundo. Ele traz que o mal foi sagaz, colocando na letra um agente, subjetivo ou não, que foi o causador de tudo isso. E finaliza que, como um cemitério, tá tudo em paz. Porque óbvio que tá tudo em paz, porque tá todo mundo morto.
Posso estar viajando? É bem possível. Mas fique aí com uma música sobre o fim do mundo na base da bomba atômica. Cananeia, Iguape e Ilha Comprida. Temos o papai Emicida de volta, e essa música é uma graça, né? Assim, primeiro que começa com ele tendo aquele diálogo com a filha, que é maravilhoso, né? Eu nunca sorri tanto ouvindo um álbum, né - eu vivo quase falando CD o tempo todo, mas eu me seguro pra não parecer velho pra gurizada de hoje. Nunca sorri tanto ouvindo um CD. E depois que a instrumentação dela é super infantil, na minha opinião, né? Tem um instrumento, eu não sei se é o xilofone, não sei, que eu associo muito a música pra criança,
né, dá um clima tudo puro e tal, tipo coisa da TV Cultura, saca? Outro ponto é a inclusão das filhas do Emicida, eu acredito que sejam, né, as duas, durante a música toda. Também contribuem, obviamente, né, pra esse sentimento que envolve ela. E é como se fosse uma faixa feita pra elas. Então eu acho isso muito fofo, e eu acho também uma boa maneira de você eternizar. Porque, quando a gente desenvolve produtos artísticos, eles enclausuram as coisas que a gente sente naquele momento, as coisas que nos são importantes naquele momento e tal. Então eu sinto que essa música enclausura e deixa eterna as filhas do Emicida, que é muito legal, né? Quando a gente para pra pensar, é uma coisa muito bonita. E, assim, nesse ponto o álbum, ele dá uma grande virada, e, enfim, eu começo a receber as músicas que eu, como eu mencionei antes, tava esperando dele.
E, sendo bem sincero, eu não fiquei nada decepcionado. Então vamos lá. Novinha. O que eu mais gosto dessa música é a possibilidade de, por desatenção, as pessoas acharem que ela fala sobre o relacionamento do interlocutor com uma guria. Mas, né, todo mundo sabe que ele tá falando dele e de uma arma. Inclusive, eu chuto, né, que a música se chama Novinha com o número 9 no título, né, substituindo as letras, pra deixar claro que ele tá falando de uma 9mm. E ela é tão bem escrita pra realmente ficar dúbia, já que o relacionamento dele com a arma é praticamente erótico. Inclusive, ele disse no Mamilos que é justamente uma música sobre essa romantização das armas no Brasil.
Principalmente agora, que a gente tem um governo que é completamente a favor da posse. Eu acho interessante essa discussão, por esse ponto de vista. Por esse prisma lúdico de poder, de status, que ter uma arma pode oferecer pra uma pessoa. Assim, pra muitos, sim, uma arma é um instrumento de defesa. Mas, dando uns passinhos pra trás, acima disso, ela é um instrumento de destruição e morte. Meu, você pode dizer: ah, mas se eu atirar no braço, se eu atirar na perna… Gente, o objetivo da arma é machucar, é destruir, é desabilitar. Por isso a gente, como sociedade, delegou o porte desse equipamento apenas pra uma pequena parcela, que, idealmente, utilizaria o armamento apenas como, entre aspas, uma ameaça de repreensão.
Ou seja: não faz merda, senão tu me dá motivo pra usar essa porra. Entretanto, a gente sabe que não é isso que acontece. E é foda.
Ismália. Agora a gente chega na faixa favorita pra muita gente que me acompanha no Twitter e comentou quando eu disse que eu iria fazer um episódio sobre o álbum. Ela não é a minha favorita, mas tá no top 3. Inclusive, as 3 próximas são o meu top 3, só dando spoiler aí. Eu não preciso dizer pra vocês que é uma música que fala sobre racismo. Mas o que eu queria enfatizar aqui é a maneira incrível em que ela faz isso: ela pega o poema do Afonso Guimarães, faz o paralelo com a lenda do Ícaro e bate na tecla sobre vários aspectos da realidade do preto no Brasil. A ponte da música, né, aquela… Geralmente, né - eu posso estar falando uma besteira. Inclusive, se eu estiver falando uma besteira, por favor, venham no meu
Twitter e me corrijam. Mas… A ponte, geralmente, é o pré-refrão, né? É sempre uma parte que ela mantém mais ou menos que a mesma estrutura. Ela pode mudar uma coisa ou outra, mas ela sempre vem antes do refrão. E a ponte dessa música já é excelente, né? Porque ela diz assim: olhei no espelho, Ícaro me encarou, cuidado, não voa tão perto do sol, eles não aguentam te ver livre, imagina te ver rei, o abutre quer te ver de algema pra dizer: ó, não falei? E, assim, eu vou falar mais sobre essa questão quando eu estiver discutindo a próxima música, mas eu lembro de ouvir um amigo meu - inclusive, um grande abraço pro Ivão, saudades - dizendo certa vez, assim, que nada incomoda mais o branco do que um preto orgulhoso. E a gente vê, por diversas vezes, a sociedade se utilizando de preconceitos pra justificar coisas horríveis que acontecem por causa do racismo.
Tipo: gente de bem não tá na rua naquela hora. Ah, quem mandou carregar um guarda-chuva por aí? Poxa, mas passou com um carro na frente da polícia, né? E todo santo dia a história se repete. A gente vive numa sociedade em que não adianta você não ser racista. Você precisa ser efetivamente contra o racismo. Porque senão você tá sendo conivente com essa putaria, sabe? Tipo: Paísinho de bosta, a mídia gosta, deixa falhar e quer medalha de quem corre com fratura exposta, Apunhalada pelas costas, esquartejado pelo imposto em postas, e como analgésico nós posta que um dia vai tá nos conforme, que um diploma é uma alforria, que minha cor não é um uniforme, hashtag pretos no topo, bravo, 80 tiros te lembram que existe a pele alva e pele alvo.
É foda, porque é o que mais a gente precisa dizer, sabe? Vamos pra próxima.
Eminência Parda. Agora, essa é a minha segunda música favorita, porque ela traz todo o aspecto formulaico que eu mais admiro no rap: que é uma batida foda com umas rimas rápidas. Estruturalmente, é desse tipo de rap que eu mais gosto. Mas, além disso, na minha opinião, é a melhor letra do álbum todo. Porque ela trabalha exatamente com o que eu falei durante Ismália: essa necessidade de abafar toda a vitória do preto que a nossa sociedade tem, que eu vejo em vários amigos meus, sempre negando seu próprio potencial, sempre no deixar disso quando você aponta e fala: você é foda. E, nessa música, o Emicida fala: sim, eu sou foda. O hip hop me trouxe até aqui e eu vou aproveitar esse lugar que eu tenho agora pra mudar o que dá.
E, por mais que o discurso seja agressivo nas partes que o Emicida canta - afinal de contas, não há mudança sem ruptura, e o caminho arrastando toda essa bagagem machucou -, a gente não pode desqualificar nem a dor nem a revolta do outro. O ideal é que a gente faça um esforço e entenda ela. Daí, quando o Papillon entra, o objetivo final vira o foco: não tem dor que perdurará, nem o teu ódio perturbará, a missão é recuperar, cooperar e empoderar, já foram muitos anos na retranca, mas preto não chora, mano, levanta, não implora, penhora a bandeira branca, não cansa a garganta, com antas, não adianta, não, foque a atenção na nossa ascensão, fuck a opressão, não tem outra opção. E, por mais que esse tipo de mensagem possa incomodar por ser, novamente, como eu já mencionei antes, combativa, no meu ponto de vista ela é um convite. Porque a luta do preto é tua também. Porque a luta contra o machismo é tua também.
Mesmo você sendo branco e homem, que é a maioria das pessoas que me escutam. Porque, se você é contrário a esse tipo de injustiça, não importa de onde vem o pedido: quando você ouve socorro, você age. E, como diz a Laerte naquele quadrinho: um dia a grande ficha vai cair. Ela há de cair. AmarElo. E chegamos a AmarElo, que é a minha favorita, não tem como. Inclusive, eu vou finalizar o programa com ela. Porque, por mais que Libre seja uma faixa bem dançante, divertida, não tem muito o que discutir ali, tá? Bom, vamos lá.
É impossível eu ouvir essa música sem chorar. Porque vem sempre a experiência do clipe junto pra mim. Porque ela começa com aquela mensagem no celular, né? Aquela mensagem de voz falando sobre como tá difícil, que mesmo com os remédios não dá pra fingir que tá bem todo dia, que é um peso enorme mostrar pra todo mundo ao redor que as coisas estão sob controle quando elas não estão. E é lógico, né, que isso ressoa comigo, porque vocês sabem o rolê que aconteceu comigo no ano passado, da síndrome do pânico, da internação, do psiquiatra, dos antidepressivos, da terapia, sabe? E é exatamente assim: um dia depois do outro. Tem dia que não dói e tem dia que dói demais. Tem dia que eu tô bem, que eu me sinto o melhor profissional do planeta Terra, e tem dia que a única coisa que eu queria era sumir.
E eu sei que muita gente compartilha esse sentimento, né? Ponho linhas no mundo, mas já quis pôr no pulso. E AmarElo é sobre isso. É sobre a gente ultrapassar esses dias ruins, porque a gente sabe que vão ter dias melhores depois. É admitir essas nossas fraquezas e tentar trabalhar ao lado delas. É saber a hora de pedir ajuda. Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes: se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência é roubar o pouco de bom que eu vivi. Então, uma barreira que aos poucos a gente está conseguindo ultrapassar é o estigma que qualquer condição específica e fora do comum das pessoas atrai a elas. Se você é cadeirante, você é definido por ser cadeirante. Se você é cego, você é definido por ser cego. Se você tem depressão, você é definido por ter depressão. E porra nenhuma, sabe? Sim, eu tenho depressão
e sou uma pessoa extremamente talentosa. E uma pessoa extremamente esforçada. E um bom amigo. E a lista continua. Não importa o tamanho da tua cruz: você não é definido ou resumido por ela. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Vai dar tudo certo no fim. Sempre dá.
Ok, é isso. Caraca, se todo programa fosse assim, fudeu, né, gente? Eu espero que vocês tenham gostado. Se vocês quiserem dar um feedback sobre o podcast, em todas as redes sociais eu sou o Caio Corraini. Caso você tenha curtido o podcast,
apresenta ele pra mais dois amigos. Eu já disse isso antes, eu tô chutando bem baixo, só dois amigos que podem curtir. No episódio do Chico Bento, vocês explodiram o meu Instagram me marcando nos prints enquanto vocês ouviam o programa e tal, e eu fiquei feliz demais. Então, pô, bora fazer esse aqui chegar até o Emicida, seria animal. Mas é isso. Um grande abraço e tchau, seus lindos! Esse podcast foi produzido pela Maremoto.
Casa do Corra