Tenkamusou
Um quadrinho sobre tênis que não é sobre tênis: Tenkamusou, do Raoni Marques, bota Musashi e Kojiro numa final de campeonato - e sobra pro mestre Yagyu ensinar que certas coisas só saem através da delicadeza.
Eu aproveito o “seja mais fraco” pra fazer a pergunta que trouxe da terapia: qual é o seu motivo? O meu tá no episódio - e passa pelos cinco editores novos da Maremoto.
Primeira vez por aqui? Como o programa e este formato funcionam
Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.
O Pocket é aquela conversa com seu amigo sobre uma obra que não precisa de vinte episódios para ser aproveitada em sua completude.
Rápido e indolor, mas ainda repleto de sentimento.
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Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.
Olá, Personas! Meu nome é Caio Corraini e tá começando mais um Minha Primeira Vez Pocket. No episódio de hoje, eu vou discutir sobre o quadrinho Tenkamusou, do Raoni Marques. O tênis sempre foi um esporte que eu meio que ridicularizei, pra falar a verdade. Assim, o quão difícil era jogar uma bola pro outro lado da rede, né? Olha o tamanho dela e olha o tamanho da sua raquete. Aí, uma vez, num passeio que eu não lembro muito bem onde foi - eu acredito que tenha sido em algum parque que meu pai nos levou e largou lá enquanto ele jogava bola -, nesse parque tinha uma quadra
com dois guris jogando. Sabe aquele jogo feio, né? Em que quem sacava ou ganhava o ponto ou acertava a rede vezes o suficiente pra ficar em desvantagem. Depois de um tempinho, eu pedi pra tentar uma vez e… bom. Tinha alguma coisa errada: a bola era mais rápida do que devia, mais pesada do que devia, e as minhas rebatidas eram mais tortas do que deveriam. Eu não consegui mandar nada pro outro lado, seja sacando, seja respondendo a um ataque do oponente. Eu saí de lá com um misto de respeito e raiva, né? Do esporte. Mas esse episódio não é sobre tênis. E sabe o que também não é sobre tênis? O quadrinho Tenkamusou.
Em 1621, Miyamoto Musashi travou o seu duelo mais famoso contra o Sasaki Kojiro na ilha Ganryu. Mas e se ambos fossem tenistas? E o embate, na verdade, fosse a final de um campeonato, com direito a entrevista coletiva, arquibancada, galera vaiando e comemorando a cada ponto? Pois é. Esse é o Raoni. Eu preciso dizer aqui que eu gosto muito dos trabalhos do Raoni, e principalmente do senso de humor dele, né? Eu conheci o Raoni com a entrada dele no Navio Pirata, que era o podcast do Pedro Falcão, depois que ele saiu da Kotaku Brasil. Eu adorava o conteúdo deles, né, e a rapidez de pensamento do Raoni sempre me chamou atenção. Ele sempre tinha uma piada, ele sempre tinha um comentário.
Como se, né, fosse algo que ele tivesse muito bem treinado. Bom, pois bem, né: foi só depois que eu descobri que ele era artista, escrevia quadrinhos. Daí tudo fez sentido. Inclusive, ainda sobre o Navio Pirata: se alguém tiver os episódios da campanha de RPG deles, a Tretas e Trutas, que é um nome maravilhosíssimo, eu super aceito esses episódios, porque é um pecado isso não estar mais na internet. Pelo menos não estava, né, da última vez que eu procurei. De qualquer forma, vamos lá. Sobre Tenkamusou. Como eu disse na introdução do episódio, por mais que ele seja um quadrinho sobre tênis, ele não é sobre tênis. É aquele tipo de obra que aproveita uma cena de ação para contar histórias paralelas e mostrar, de uma maneira mais aprofundada, o que realmente está em jogo ali
e o que o nosso protagonista, nesse caso, o Musashi, está levando de bagagem para aquele momento. A lenda do Musashi, detalhada no livro dos Cinco Anéis - que, inclusive, eu nunca li, mas eu morro de vontade -, fala sobre ele como um dos espadachins mais importantes do Japão. Claro que, para a história real oficial, a gente tem alguém como, sei lá, o Nobunaga, como um guerreiro e estrategista absurdamente mais importante. Mas a mística ao redor do Musashi é muito tentadora pra gente. São diversas obras de arte desenvolvidas sobre ele, que, de acordo com o livro, nunca foi derrotado em combate. Em Tenkamusou, a gente tem um Musashi explosivo, raivoso, como ele é retratado antes do encontro com o mestre Yagyu - que eu acredito ser baseado no Yagyu Munetoshi ou Yagyu Munenori. Eu, sinceramente, não sei direito qual dos dois, então vocês me mandem, né?
Vocês que conhecem melhor, me mandem no Twitter depois. Na partida entre os dois tenistas, ele é o underdog, né? Sem apoio popular e indo contra um Kojiro preste a se tornar o Tenkamusou, que é o título de quem ganha o torneio cinco vezes. Esse feito, no quadrinho, ele é tratado de uma forma quase religiosa, assim, com a sensação de que esses atletas se elevam a um panteão muito inatingível em relação aos outros. E é esse o motivo pelo qual o Musashi vai procurar o Yagyu: porque ele era o último Tenkamusou. E nisso a gente tem o, na minha opinião, real núcleo do quadrinho: as discussões e ensinamentos do Yagyu para o Musashi. Porque, conforme a partida vai se desenvolvendo, a gente vê o Musashi sofrendo e, gradativamente, internalizando os conceitos que o mestre levanta para ele.
Do mesmo jeito que uma luta entre dois samurais, é possível enxergar qualquer disputa, seja ela atlética ou não, como um embate em que o lado mais preparado vai sair vitorioso. E também é possível enxergar qualquer tipo de competição das mais diferentes maneiras. Tem quem luta por si mesmo, pelos seus próximos, por fama, orgulho, pra provar algo pro mundo, e eu poderia continuar falando sobre vários motivos. Mas eu queria discutir um pouco sobre isso agora. Qual é o seu motivo? Se a gente fizer um exercício em que estabelece que o nosso dia a dia é um embate desses, e que as nossas obrigações são os obstáculos ou oponentes que devem ser ultrapassados, qual é o seu motivo? Eu discuti sobre isso essa semana na terapia, e é meio que justamente por isso que eu estou trazendo aqui.
Depois de enterrar alguns dos esqueletos do meu passado e também lidar com alguns traumas que a minha bela família me proporcionou, muitos dos meus últimos meses de terapia foram focados em desconstruir a minha autoimagem como profissional e impedir que eu continuasse me sabotando. Esse trabalho que eu fiz com a minha psicóloga resultou na Maremoto. Resultou nesse podcast que você está ouvindo agora. Resultou no fato de que, aos poucos, eu estou tentando abrir portas para mais pessoas e ser esse agente de mudança na vida dessa galera. Essa semana eu trouxe pra perto de mim cinco novos editores, e hoje, na data dessa gravação, eu já consegui fazer com que cada um deles tivesse um projeto em mãos, por menor que seja. Eu falei sobre isso na terapia e eu descrevi de que esse era o meu motivo: de que não adiantava nada pra mim crescer se for pra ser sozinho.
Eu não sou assim e não é isso que eu quero ser. Então, quando o Musashi do Raoni diz pro Yagyu de que ele joga tênis pra ser o melhor, eu tô do lado do Yagyu, que fala: então eu não vou te treinar porra nenhuma. Porque é como dizer que o objetivo da vida é simplesmente ser melhor do que os outros. Não é só uma partida de tênis. Essa é uma história sobre o crescimento do Musashi. Sobre como ele, além do Kojiro, vai ter que enfrentar o público e si mesmo na quadra. Porque é difícil não duvidar da sua própria capacidade ao entrar numa briga com algo que parece intransponível. Tem uma passagem da lenda do Musashi de verdade - lenda barra de verdade, é complicado a gente falar sobre essas coisas da antiguidade - em que ele tenta cortar uma flor do mesmo jeito que Yagyu cortou. Essa flor foi enviada pra um espadachim como pedido de desculpas por não aceitar um duelo e tal. O corte do Yagyu
era perfeito. Ele era liso e reto. E, sempre que o Musashi tentava fazer igual, ele não conseguia. Ficava serrilhado, ficava grosseiro. Daí ele pede pro velho ajudar ele, pra ensinar qual é. E o Yagyu diz: seja mais fraco. Porque o Musashi fazia tudo com raiva, com força bruta. E foi só depois disso que ele entendeu que tem certas habilidades da espada que só podem ser feitas através da delicadeza. E, no quadrinho, a gente tem o mesmo tipo de aprendizado, em que o mestre dele diz que não é pra bater na bola como se ele estivesse com raiva dela. O tênis é sobre conduzir a bola para o outro lado. O que o seu oponente faz depois disso é problema dele. Então, como eu disse antes, não é sobre tênis, é sobre ele. E ele entende isso. Eu tô fazendo esses paralelos porque tem muitos momentos na nossa vida
em que, quando a gente começa a perguntar por quê, não chega a algo satisfatório. É claro que todos nós somos diferentes, e pra alguns de vocês tudo isso que eu tô falando é besteira. Mas, ainda assim, tenta fazer esse exercício: tenta colocar os objetivos da sua vida em perspectiva e ir perguntando porquê pra cada um deles. Pode ser que, no final, assim, nenhum mude, mas você vai saber mais sobre si mesmo e sobre quais barreiras que vão ser mais complicadas de transpor. Por exemplo, né? Vamos lá, exemplo. Eu vou fazer um exercício pra vocês aqui agora. Eu quero juntar dinheiro. Por quê? Porque eu quero comprar um apartamento. Por quê? Porque eu quero estabilidade nesse aspecto na minha vida. Por quê? Porque a única família que eu tenho é a minha avó. E, quando ela se for, se der tudo errado pra mim, eu não tenho pra onde voltar.
Isso me dá muito, muito medo.
Ok, chegamos, né? Assim, todas as nossas disputas possuem uma motivação. No caso do Musashi, a gente vai ver lá no final do quadrinho que, apesar do objetivo dele continuar sendo eu quero ser o melhor, a motivação dele é muito mais profunda do que isso. Ele quer ser o melhor pra chegar no mesmo lugar que todos os que influenciaram ele até ali. Ele quer ser o melhor porque ele sabe que, se toda essa jornada acabar por inspirar outras pessoas a seguirem o mesmo caminho que o dele, vai valer a pena. Então, o que a gente começa achando que é um estímulo mesquinho e arrogante, a gente termina por perceber algo muito mais positivo. É um envolvimento do personagem com o seu meio que não tava disponível pra gente no início. Nem pra gente, nem pros espectadores da partida, que, ao assistirem o esforço do Musashi,
eles começam a torcer pra ele também. No fim, o propósito que tira cada um de nós da cama todos os dias, de princípio, é só nosso. Mas, se a gente encontrar pessoas no decorrer da vida que compartilhem desse intuito, a gente começa a sonhar junto. Mas e aí? Qual que é o seu motivo? E é isso, um episódio mais curtinho hoje, porque também, né, o quadrinho é um pouco curtinho. Se vocês quiserem comprar o quadrinho, assim, eu recomendo absurdamente. Porque tem coisas, né, que eu acabei não falando no episódio: sobre a arte, sobre os traços do Raoni, sobre, cara, a maneira com que ele constrói as cenas. Assim, tipo, é uma partida de tênis,
mas é emocionante: você vibra, você torce, tem aqueles elementos sobrenaturais de metáforas, né, que acontecem só na cabeça do Musashi. Porra, é muito, muito bom. E eu recomendo, assim, tudo do Raoni, né? O do cachorro padeiro boxeador - eu ainda vou fazer um episódio sobre ele. Cara, é bom demais. Tudo que o Raoni faz é muito bom. Se vocês forem pra CCXP e ele estiver lá, cara, compra a mesa inteira, porque super vale a pena. Se vocês quiserem dar um feedback sobre o podcast, em todas as redes sociais eu sou o Caio Corraini. Caso você tenha curtido o programa, apresenta ele pra mais pessoas, pode ser? Um grande abraço e tchau, seus lindos! Esse podcast foi produzido pela Maremoto.
Casa do Corra