Maremoto
O episódio-manifesto do aniversário de um ano da Maremoto: do guri que vendia sorvete na rua ao Games on the Rocks, do blog ruim pra caralho à empresa de 10 pessoas que publica mais de 80 episódios por mês.
E a parte que não aparece em release: as 16 horas por dia, o quase largar tudo e a terapia pra entender que aguentar as porradas sozinho não é ser forte, é ser burro.
Primeira vez por aqui? Como o programa e este formato funcionam
Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.
O Pocket é aquela conversa com seu amigo sobre uma obra que não precisa de vinte episódios para ser aproveitada em sua completude.
Rápido e indolor, mas ainda repleto de sentimento.
Ler a transcrição 1.592 palavras
Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.
Quando jovem, eu passei por diversos estágios de um relacionamento com o conceito de envelhecer. Teve o receio, né? Porque humanos são avessos a mudanças, e, se a minha vida era ok com o meu Nintendo e a escola, por que mexer em time que tá ganhando, sabe? Houve um momento de expectativa, como se o passar do tempo fosse a minha carta de alforria pra fazer o que eu bem entendesse, ao contrário do que as pessoas que haviam chegado no planeta antes de mim diziam. A gente passou também pela euforia. Minha casa, minhas coisas, minha rotina, tudo meu, meu, meu. Meu reino, meu pedaço de liberdade no mundo, onde o que eu digo é lei. Que logo foi substituído por aquele soco de realidade, né? Minha casa, minhas coisas, minhas contas. Peraí, elas vêm todo mês? E como assim eu ainda preciso aprender a cozinhar? Ninguém tinha me dito que meu corpo ia apodrecer vivendo a base de lasanha congelada todo dia.
O que nos traz ao momento atual, em que o meu relacionamento com o envelhecer é baseado em aceitação, paciência e também a busca por construir algo. Propósito é algo que entrou na moda com a nossa geração. Quando todos voltarem a ser poeira, o que a gente vai deixar?
A minha vida profissional evoluiu de maneira até que bem de acordo com o keikaku, quando eu paro pra pensar. Ah, eu comecei com alguns trabalhos mais simples, né? Vendendo sorvete na rua, carregando e distribuindo produto de limpeza e perfumaria em mercadinho, farmácia, call center, vendedor da Renner. Inclusive, você já tem um cartão Renner?
Ai, que inferno, velho, que ódio dessa época. Fui garçom. Assim, eram atividades que me permitiram correr atrás da graduação que eu precisava pra entrar no mercado que eu sempre sonhei: o jornalismo. Especificamente, o de videogames. E, veni vidi vici, eu consegui realizar esse sonho. Eu trabalhei ao lado de muitas pessoas incríveis e talentosas, em revista, em site, no Brasil, no exterior. Eu escrevi, entrevistei, gravei e criei. O mercado editorial me tratou muito bem. Obrigado. O problema é que, quando eu saí do iG em 2014, eu me vi, pela primeira vez em muitos anos, sem um plano. Sem saber qual seria o meu próximo passo. Se eu passei a minha vida inteira me preparando, porque eu tinha acabado de viver, o que caralhos eu faço agora, sabe? E foi muito desesperador, porque eu sentia que eu não tinha mais talento algum.
Eu não tinha o que oferecer, né? Ou que o mundo chegasse à conclusão de que: ok, isso tem valor, toma dinheiro, vai lá comprar um sorvete. E eu precisei que as pessoas me esfregassem na cara tudo que eu tinha construído até aquele momento, né? Porque, durante a minha carreira como jornalista, uma coisa que eu criei foi o Games on the Rocks, um dos podcasts mais populares do país na sua época. E, justamente por ter estado por trás de um projeto como esses, é que me abriram a porta pra que eu tivesse novos próximos passos. Eu me apaixonei pelos podcasts assim que eu entrei em contato com eles. Era a mídia perfeita pra mim. Eu pegava duas horas de ônibus pra ir e mais duas horas pra voltar da minha faculdade, e no primeiro dia de aula eu descobri que eu ficava enjoado quando eu tentava ler algo em movimento.
Então, né, não havia música no mundo que tirava o meu tédio dessa peregrinação diária, e a CBN repetia o conteúdo de meia em meia hora. Foi então que, ao acessar alguns dos meus sites corriqueiros sobre games da época, eu tomei conhecimento dessa nova mídia, com programas mais longos, bem-humorados, com os jornalistas que eu acompanhava e já consumia o trabalho. Naquelas conversas que eles tinham, eu pude me sentir mais próximo dessas pessoas. Descobri quem eles eram por trás dos caracteres de uma página na internet. Algum tempo depois, eu fui convidado pra trabalhar em um blog que eu gostava muito, o Continue.. E putz, lembra blog? Que doideira, né? Caralho, tô falando ao australopiteco essa porra nele. Enfim, me veio o estalo de que, além de consumir, eu podia aprender a desenvolver também os podcasts. E assim a gente fez. Era ruim? Pra caralho.
Como quase todo programa que surgiu naquela época. Mas foi o suficiente pra me apaixonar nos processos e perceber que, além de me expressar falando - afinal, eu sou um profissional de comunicação -, eu também podia me expressar pela edição. E, como vocês devem saber, o processo de edição é extremamente trabalhoso e solitário. Mas eu encontrava uma certa paz nisso. Algumas pessoas montam quebra-cabeça, outras compram aqueles cadernos, né, com uns desenhos complexos e cheios de espaço pequenininho pra pintar. Eu corto gagueira. É um tanto zen, pra falar a verdade. Além disso, a possibilidade de determinar os rumos da conversa, o timing de uma música, fazer um floreio com o objetivo de atingir uma sensação específica. A arte na edição. E eu mergulhei completamente nela. Mas por que que eu contei, mesmo que brevemente,
essa história toda que, acredito eu, a maioria das pessoas que estão escutando esse programa nesse momento já conhecem? Porque hoje é o aniversário de um ano da Maremoto. Em 2019, depois de anos vivendo profissionalmente de podcasts, eu não pude mais assinar meus programas assim: esse podcast foi editado por Caio Corraini. Porque ia ser mentira. Muito havia mudado, eu havia me estabelecido como um dos grandes editores do país e a roda estava girando a uma velocidade que vocês podem ter certeza de que eu não havia previsto. Podcast ainda é nicho, mas, oh boy, como esse nicho cresceu, sabe? Eu estava sendo procurado por CNPJs enormes e, sozinho, eu estava me afogando. A onda vinha e a minha força sozinha não era suficiente pra flutuar. Eu trabalhava mais de 16 horas por dia, não dormia direito, esquecia de me alimentar,
mal tinha tempo de ver as pessoas que eu amava, e isso me deixava péssimo. Como que eu posso ter tanto sucesso profissional e falhar dessa maneira em todos os outros pilares da minha vida? Eu tive muitos momentos de quase ruptura total, sabe? De querer desistir de tudo, jogar o computador pela janela e, sei lá, mano, procurar um emprego que eu pudesse largar o mouse seis da tarde, voltar pra casa, jogar videogame, ter encontro, poder marcar uma cerveja com os amigos. Viver, sabe? Nossa, olha só que conceito incrível: viver. O trabalho, ele sempre teve muito significado pra mim. Eu sempre tive muita sorte em fazer coisas que eu gostava e acreditava. Mas ele havia virado tudo o que eu tinha. Basicamente, só o que eu tinha. Foi com muito tempo de terapia que eu consegui admitir pra mim mesmo que eu precisava de ajuda,
e que isso não ia me fazer fraco. Que esse processo de amadurecimento, de abraçar a vida adulta, não significava ter que aguentar todas as porradas sozinho. Isso não é ser forte, isso é ser burro. Ninguém se importa com o esforço enorme que você faz se ele é desnecessário. E foi assim que a embarcação começou a se formar. Eu pedi ajuda de uns amigos, me aproximei de pessoas que eu já considerava talentosas, apostei em gente que parecia ter potencial. E, olha, eu posso dizer com toda certeza de que eu não tava preparado. Vocês lembram que eu tinha mencionado antes de que a edição era solitária, controlada, zen? Coordenar uma empresa é o contrário: é plural, é caótico, é burocrático. É o trabalho mais difícil que eu já fiz em toda a minha vida. E o trabalho é mais legal
também. Hoje somos em 10 pessoas fixas e mais diversos colaboradores que vêm e vão de acordo com a demanda dos projetos. Não é sempre que a gente precisa de ilustrador, por exemplo, mas a gente também oferece esse serviço para os nossos clientes. A gente atende mais de 20 empresas e a gente publica mais de 80 episódios de podcast por mês. É muita coisa. Bate um orgulho enorme ver o que a gente está construindo e perceber que a gente ainda nem começou direito. A Maremoto, ela aflorou em mim um sentimento que não existia antes: o de responsabilidade para com o bem-estar dos outros. De ser um profissional melhor não apenas por pressão externa ou concorrência no mercado, mas porque eu tenho uma equipe foda e eu quero tudo de melhor pra ela. Se antigamente eu editava coisa de 3
podcasts por dia, atualmente eu faço isso por semana. Meu papel é ajudar na coordenação da equipe junto com o nosso gerente de projeto, acompanhar o trabalho do controle de qualidade, ser o craque do Excel controlando as finanças, além de reuniões e mais reuniões e mais reuniões, afim de trazer mais trabalho para os nossos editores. É triste, né, a gente ser atingido por uma pandemia bem no momento mais importante desse nosso mercado. Mas, mesmo com todos os contratempos, a gente continua crescendo, nos desenvolvendo, com o vento soprando na vela e estabilidade financeira para todos os envolvidos. Então eu queria pegar esse momento e falar muito obrigado: André, Edu, Eduardo, Nate, Luan, Zabuzeta, Randi, Márcio e Murilo. Vocês são a melhor equipe que alguém poderia sonhar em ter.
E, bem, um ano de trabalho depois, eu posso dizer que nós tivemos, temos e vamos continuar tendo sucesso. Porque as ondas não nos engolem mais. Afinal, nós somos Maremoto.
Casa do Corra