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Casa do Corra
Evangelion Episódio 16

The Sickness Unto Death, and Then...

Temporada completa30 episódios
19 jan 2020 · 41 min

O Shinji finalmente é o melhor em alguma coisa e resolve atacar um anjo sozinho. O resultado é exatamente o que você tá esperando. Moleque burro do caralho.

O anjo da vez é uma sombra que engole o Eva 01 e lá dentro o Shinji passa quase o episódio todo discutindo com uma versão criança de si mesmo sobre as versões nossas que existem na cabeça das outras pessoas. Do lado de fora, a Misato revela que ninguém nunca contou pra ela o que é um Eva e a Ritsuko explica com todas as letras que a prioridade é recuperar a máquina, não o piloto.

Muitas discussões profundas neste episódio.

Primeira vez por aqui? Como o programa e esta temporada funcionam
O programa

Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.

Esta temporada

Eu nunca tinha visto Evangelion. Daí resolvi que a primeira vez ia ser gravada.

Assisto um episódio e gravo na sequência. Sem roteiro, sem pesquisa e sem voltar atrás pra consertar palpite furado - e tem muito palpite furado aqui.

Acompanhe a série pelos olhos do ineditismo. Seja ao meu lado ou rindo da minha cara.

Ler a transcrição 5.504 palavras

Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.

Olá, Personas! Meu nome é Caio Corraini e estamos todos falando com uma versão jovem de nós mesmos, porque tá começando o Minha Primeira Vez. Hoje nós vamos discutir o episódio número 16 de Evangelion, The Sickness Unto Death and Then. Meu inglês é uma porcaria, desculpa, gente. Mas ó, caraca, tamo chegando lá.

Agora eu acredito que a gente tá num lugar em que todos os episódios vão oferecer conteúdo, porque não dá mais pra sustentar tantas dúvidas, colocar tantos mistérios e conseguir resolvê-los de uma maneira interessante até o final dos 26 episódios. Esse episódio foi excelente, principalmente porque, oh boy, a gente vai ter umas discussões um pouco existencialistas lá pro final.

Esses são os momentos em que eu mais me divirto aqui, sendo muito sincero. Lembrando que eu tento ser um pouquinho mais descritivo com os episódios pra ajudar quem não tá assistindo e só quer curtir os meus comentários.

O episódio começa com a briguinha deles em casa. A Asuka brigando com o Shinji porque a água do banho dela tava mais quente do que deveria, ele pedindo desculpa porque o Shinji na verdade é canadense e blá. Tem essa discussão aí. Eles chamam atenção pra esse fato três vezes durante o episódio, a primeira vez é aqui, em que a Asuka fala que a Misato tá de bom humor porque ela voltou o relacionamento dela com o Kaji, nananã. Ela fala que não, mas logo depois a secretária eletrônica toca uma mensagem dele chamando ela pra beber.

Eles seguem pra mais testes de sincronização e finalmente o Shinji chega ao posto de criança com a maior pontuação. Nesse momento ele fica muito feliz, e eu sinto que a animação dele seja talvez porque ele pensa que vai ganhar elogios do pai por conta disso, porque o envolvimento dele com o Eva foi a primeira vez que ele conseguiu ter uma resposta positiva do pai. Foi numa das missões que teve sucesso e ele foi elogiado por conta disso.

Então eu sinto que essa positividade em relação a esse resultado de ser a criança com a maior pontuação de sincronização, de ser, entre aspas, o mais talentoso com o Evangelion dele, talvez na cabeça dele seja um esquema meio pavloviano de que, sendo bom nisso, eu provavelmente vou ser elogiado, e é isso que eu quero. Então por isso a animação dele

mas a Asuka, obviamente, com o orgulho dela do tamanho de Osasco, claro que ela fica putaça, porque essa é a maneira normal dela corresponder a isso.

Logo depois um anjo que é basicamente uma bola de praia com pele de zebra aparece na cidade, e isso já tá começando de novo a me incomodar um pouco, porque esse apareceu no meio da cidade sem nenhum radar ter detectado, tá ligado? Então, de novo, aquele sentimento de: cara, a humanidade tá fudida, bicho, a gente tá na beirola da extinção, vai dar ruim se a nossa última defesa é a NERV. E temos aí mais um caso de sucesso dessa teoria, de que fudeu, acabou, gente, é isso aí.

É a mesma coisa que você deixar uma pessoa cuidando de uma tartaruga e a tartaruga fugir. Essa é a NERV, a NERV é essa pessoa que deixa a tartaruga fugir. Embora eu já vi uns vídeos de umas tartarugas correndo que dá mó medo. Anyway, socorro, gente.

Durante os testes, uma das pessoas que já falaram o nome dela, mas eu esqueci o nome da moça lá, uma das assistentes de tecnologia, pergunta como a Misato tá, que ela parece cansada, e ela fala que são questões pessoais. Essa é a segunda call dessa informação. E quando o anjo aparece, a Misato chega atrasada. Aparentemente isso pode ter uma relação com o envolvimento dela com o Kaji. Esse envolvimento está influenciando o trabalho dela. E aí, de novo, como eu sempre tento trazer, a gente pode levar isso em duas direções

ou as duas, não que uma seja 100% separada da outra. Mas duas divisões principais: ou ele está influenciando ela pessoalmente, e eles realmente voltaram a ter um relacionamento amoroso e tudo mais, e ela tá meio que se entregando a isso e ficando mais envolvida do que, entre aspas, deveria com o Kaji, e isso tá influenciando a vida profissional dela. Ou o envolvimento dela - eu vou colocar aqui um e/ou, porque eu acredito que seja sim a união de ambos, em porcentagens diferentes, obviamente - mas também o envolvimento dela com o Kaji profissionalmente.

Afinal de contas, ele ganhou um pouco da… um pouco não. Eu acredito, ele ganhou muito da confiança dela depois que ele revelou pra ela o Adão, que é o primeiro anjo e tal. Então isso são detalhezinhos que eles estão colocando gradativamente

pra mostrar que talvez a NERV esteja deixando de ser uma das prioridades na vida da Misato. Afinal de contas, ou ela tá ajudando o Kaji e/ou, como sempre, ajudando o Kaji na investigação dele - tem muitos segredos na NERV que a Misato não sabe - e também a questão do envolvimento com ele como um casal, um envolvimento amoroso com o Kaji, que também não está nem um pouco descartado.

Saem os três Evas para ir para cima do anjo, a Asuka diz para o Shinji ir para o ataque, afinal de contas ele é o bonzão, ele é o melhor de todos, e aí a Rei e a Asuka ficam de backup, ficam na retaguarda, ficam para dar apoio ao ataque do Shinji.

Conforme eles estão se movimentando na cidade tem um detalhe muito bacana na movimentação do Eva da Asuka, que ela tá se movimentando

tentando se aproximar mais do anjo e tudo mais, e o cordão umbilical, o cordão de alimentação de energia, fica esticado demais, daí ela desliga e tira outro de um prédio mais próximo. Então, de novo, aquele comentário que eu fiz vários episódios atrás de que parece que a cidade é construída pra auxiliar na batalha contra os anjos aparece mais, porque ela tira outro cordão de alimentação de um outro prédio. Ou seja, eles devem estar espalhados estrategicamente por toda a cidade pra auxiliar o combate deles mesmo.

Nisso o Shinji tá naquele sentimento de: caralho, agora eu sou a melhor criança, agora eu tenho os melhores resultados, eu vou acabar com essa porra desse anjo sozinho, e foda-se porque é nóis, mano, pela primeira vez na vida. Deixa vomigo, toca po pai, caralho.

Ele vai pra cima do anjo, não espera as duas seguirem até uma posição de apoio, e é engolido pela sombra do anjo. Pelo menos naquele momento é o que parece pra gente. Fica todo mundo muito surpreso, muito confuso, e a Misato pede pra que as outras pilotos recuem. Com muito contragosto, então, ela pede que as duas se afastem.

O Shinji aparece num lugar tudo branco - o que depois, com os comentários da Ritsuko com a Misato, a gente acaba meio que sabendo que ele tá quase que numa outra dimensão. Ele coloca o Eva dele em modo de manutenção, o que garante que o robô tenha (eu fico falando robô, mas a gente já passou por cima disso)

mais umas 16 horas de energia. O interessante é que, depois dos estudos feitos, depois de terem mais informações, a Ritsuko fala que o anjo na verdade é a sombra que engoliu o Shinji, e a esfera no céu é a sombra desse anjo. O que é um conceito muito doido. Tanto que, quando o Shinji ataca aquele globo, ele some, é como se não estivesse ali, como se fosse algo intangível mesmo. Então é bacana essa mudança de que o anjo na verdade é a parte do solo que engole as coisas.

O plano da Ritsuko é soltar todas as 992 bombas N2, que é aquela bomba inacreditavelmente forte que eles já lançaram em outros episódios, é lançar essas mais de 900 bombas ao mesmo tempo no alvo pra romper o campo dele por um milissegundo.

Na hora que ela tava explicando esse plano, parecia muito outro gerador de lero-lero, sabe? Aquele negócio que ela fala um monte de coisa super complexa e nada disso faz realmente sentido. Então eu nem botei muita fé na hora, sendo muito sincero. Falei: ah, tá, vão explodir todas as mil bombas em cima do negócio, a própria cidade vai virar pó, bicho. Apesar dela ter explicado alguma coisa com os escudos e nanã, cara, eu simplesmente, nesse momento, na minha cabeça, parecia a professora do Charlie Brown, sabe? Mó, mó, mó, mó, mó, mó, mó. Então eu simplesmente ignorei essa parte.

Mas ela diz que a prioridade é recuperar o EVA-01, e que eles não são responsáveis pela vida do Shinji. E daí a Misato dá um puta num tapão no pé da orelha nela, porque ela fica putaça

da maneira com que eles priorizam o Eva e não o piloto.

Afinal de contas, sendo muito frio e calculista, ela tem razão. A própria Rei consegue pilotar o EVA-01, então meio que faz sentido realmente ter como prioridade recuperar o Eva do que salvar o Shinji. Mas ainda assim você não fala isso na cara da Misato, tendo em vista o relacionamento dela com o Shinji, a maneira com que ela se enxerga no Shinji também, que é uma coisa que, gradativamente, com o passar dos episódios, a gente vai vendo que é uma das coisas que mais faz com que eles se aproximem. O fato deles compartilharem tanto dessas coisas, como os daddy issues e todo o resto.

A Misato dá um tapão no pé da orelha e pergunta o que caralho é o Eva. E nesse momento eu fiquei pensando: porra, se a major não sabe, é porque fudeu mesmo.

A Misato não tem essa informação, não abriram o jogo nesse sentido pra ela. Cara, como é que você aceita liderar essas atividades, essas missões, fazer todos esses procedimentos utilizando armas de combate que você não tem a mínima ideia de como foram construídas, de que você não tem a mínima ideia de como funcionam? Caralho, velho, se eu fosse a Misato eu já tava loucaça do cu tentando entrar em tudo quanto é duto de ventilação pra descobrir essa porra fazia muito tempo, bicho. Cês tão loucos.

E é nesse momento que a gente vê realmente que a Misato tá borbulhando de puta pelo tanto de segredo que tão escondendo dela, como a motivação por trás do segundo impacto, aquele projeto de instrumentalização humana que até agora - eu não sei se isso passou direto pela minha cabeça, mas eu também não tenho ideia de que

projeto é esse. E ela também mencionou o Adão. Então isso provavelmente ajuda ela a ficar mais próxima do Kaji, já que ele é o responsável por oferecer essas informações pra ela e deixar clara a ignorância dela nesse jogo.

Porque, por mais que o Kaji tenha uma personalidade que eu acho abominante, ele é o primeiro que viu na Misato uma aliada e abriu o jogo pra ela. O Kaji sabe que com a ajuda da Misato ele vai conseguir mais informações. Se ele trabalha junto com ela, eles estão trabalhando com o mesmo objetivo, que é tirar finalmente todos esses segredos de dentro da NERV. Ele sabe que ele tem um puto de um aliado forte pra caralho, afinal de contas a Misato chegou numa patente super alta dentro da empresa e tudo mais.

Mas é foda, sabe? Porque imagina você ter tanto poder dentro de uma organização

e, ao mesmo tempo, não saber nada. A mesma coisa que aqueles caras: ah, não, o meu objetivo é virar presidente dos Estados Unidos pra que eles me contem o que tem na Área 51. E aí você chega lá e ninguém te fala nada. É aquele negócio de: não, isso é fachada, a gente faz isso só pras pessoas terem algo pra acreditar. Porque se na verdade os humanos tivessem a certeza de que não existem extraterrestres, eles iam voltar pra um pensamento, sei lá, rudimentar e sem a possibilidade de enaltecer a exploração espacial. Sei lá, eu também liguei o meu gerador de lero-lero aqui.

Mas entende? É você chegar numa patente forte numa porra e não saber como que funciona. Você ser o vice-presidente da fábrica de salsicha e não te contarem qual o cavalo que estão enfiando lá dentro, tá ligado?

Nossa, quer dizer, horroroso, Corraini! Mas vocês entenderam o que eu tô querendo dizer.

Nisso a gente volta pro Shinji, e a gente volta para o melhor momento desse episódio. O Shinji tá nessa outra dimensão e tudo mais, ele tá nesse lugar todo branco, e eu acredito que essa parte a gente pode, de novo, pegando as duas vertentes, levar em consideração pelos dois lados: pela parte metafórica e pela parte factual, aconteceu aquilo. Porque a gente pode muito bem pegar esse momento em que o Shinji é confrontado com a outra versão dele, eles tem uma discussão, num sentido de que

o Shinji tava com pouco oxigênio, ele já tava meio que delirando ali, todos os sinais vitais ficando mais lentos, afinal de contas a energia do Eva tava acabando, do traje dele, todas essas coisas. Então provavelmente todo esse momento pode ser basicamente coisa da cabeça dele, ao mesmo tempo em que nada impede que aquilo seja factual, que aquele diálogo entre as duas versões dele realmente aconteceu.

De qualquer forma, o que importa é o conteúdo, porque ele é confrontado com uma discussão sobre as variantes do eu dentro da mesma pessoa. O eu que pode ser visto, o eu que está do lado de fora, que está em contato com o mundo ao redor, e o eu que observa, o eu que está dentro da nossa cabeça, o eu que a visão de realidade dele pode ser diferente, na verdade. Também que existem muitas versões de nós mesmos por aí.

Ele menciona o Shinji que tá dentro da Misato, o Shinji que tá dentro da Asuka, e assim por diante. E isso é muito foda, porque todos são verdadeiros. A gente já teve aquela discussão sobre perspectiva nos episódios atrás, de se a árvore que cai na floresta faz barulho ou não, e tudo isso depende da perspectiva que a gente tá levando em consideração naquele momento.

E isso é muito foda, porque essa impressão de nós mesmos é muito louca, cara. É a mesma coisa que quando você… A voz que a gente escuta e a voz que os outros escutam, que é completamente diferente. Tá, completamente é uma palavra que tem um sentido extremamente rude, mas é bem diferente. A voz que a gente escuta dentro da nossa cabeça, a voz que é alterada por ressoar em todos os ossos do nosso rosto e todas essas coisas.

e a voz que as outras pessoas recebem depois que ela propaga pelo ar e tudo mais. E isso também acontece conosco, como pessoas.

Vamos supor que você mora num prédio e você sempre tratou o seu porteiro muito bem - que é o meu caso. Eu adoro ficar brother dos porteiros porque eu sei que eu posso recomendar podcast pra eles, é uma profissão que se beneficia muito de podcast. Mas não só por isso: afinal de contas é uma pessoa que tá trabalhando no lugar que eu moro. E também que sejam bons com todo mundo. Ô, caralho.

Mas a impressão que o meu porteiro tem de mim pode ser diferente da impressão da pessoa que tenta entrar no metrô antes de eu sair. Porque ela vai me achar o maior escroto do mundo, apesar dela ser uma escrota nesse momento. Fica um ensinamento, gente: sempre esperem as pessoas saírem antes de você entrar.

É contra a porra da lei da física que os dois corpos ocupem o mesmo lugar ao mesmo tempo, isso me deixa puto.

Mas a impressão, o Caio que existe na cabeça do porteiro Caio - meu porteiro atualmente também chama Caio - é completamente diferente do Caio que existe pro escroto que tenta entrar antes de eu sair do metrô, porque ele vai tomar uma cotovelada no pescoço pra largar a mão de ser escroto. Então essas duas pessoas tem versões minhas dentro de si. Claro que na cabeça do cara que tomou o cotovelado no pescoço é uma versão perecível, eu não faço parte da vida dele. Ele vai ficar puto comigo, sei lá, um, dois dias e vai me esquecer depois. Ou ele pode voltar para matar eu e minha família daqui a dez anos. Nunca saberemos. Ou saberemos quando será tarde demais.

De qualquer forma, são versões diferentes de mim. E as duas estão

corretas. E as duas existem. E as duas têm motivações para ser como são. E a gente não tem controle algum sobre essas versões.

Claro que a maneira com que a gente escolhe tratar as outras pessoas influencia diretamente nessa percepção. Mas se uma pessoa não quer gostar da gente, você pode ser o Mr. Nice Guy, você pode ser educado, você pode ser tudo de bom. Se a pessoa não quer gostar de você, se algum detalhe em você fere a percepção de positivo dessa pessoa - sei lá, uma pessoa muito religiosa e viu um cara que é metaleiro - os preconceitos e todas essas concepções que ela guarda dentro de si e que vão diretamente contra o que ela tem de fé, o que ela tem de ponteiro moral e todas essas coisas já fazem com que ela se afaste dessa pessoa naturalmente. Claro que ela pode ser dobrada e com o tempo, gradativamente,

dar o braço a torcer e ver que, na verdade, é uma boa pessoa e que primeiras impressões não fazem muito sentido e yada, yada, yada.

Mas tudo isso a gente tem que levar em consideração e viver em paz que todas essas versões nossas são verdadeiras. E a gente não tem controle sobre elas. A gente não pode ficar travando a nossa vida por causa delas.

E isso é justamente o que essa versão criança - o Shinji criança, eu vou falar o Shinji criança pra ser mais fácil, porque figurativamente na animação era ele na idade atual falando com o Shinji pequenininho - é exatamente isso que o Shinji criança fala pro Shinji normal. O que importa é que o Shinji teme essas outras versões dentro da mente dos outros. Ele fica nesse receio de que os outros vão odiar ele e, por isso, ele se importa tanto com essas versões. Pelo fato de ele estar sempre com receio, pelo fato de ele estar sempre na defensiva,

pelo fato de, em todas as situações, ele se postar como um perdedor na jogada - se for uma disputa, entre aspas, de poder ou de status ou de qualquer outra coisa, o Shinji sempre já se coloca na posição de perdedor - faz com que essa visão dentro da cabeça das pessoas seja cada vez mais real. E que realmente seja bem difícil gostar da porra do Shinji, porque é difícil você gostar de uma pessoa que se coloca tanto pra baixo.

E todos nós temos esses momentos, eu acredito que todos nós temos nossos pontos legais, os pontos baixos, e as amizades são construídas independente desses pontos. Com o passar do tempo você acostuma que as pessoas que você gosta também tem dias ruins, e tudo bem.

Então, pelo fato de temer tanto essas versões dele que ele não tem controle, o Shinji não vive. A versão criança dele joga na cara do Shinji que ele se agarra

a uma migalha de felicidade pra seguir vivendo, e que isso não é suficiente pra ninguém. Ele foge das dificuldades e só quer viver esse momento de felicidade. Tanto que, ao ser confrontado com isso, o Shinji berra, esperneia, fica muito incomodado, porque ele sabe que é verdade.

Toda essa questão de ele ficando feliz por ser a criança com mais sincronização com o Evangelion, ele tomando a frente no ataque contra esse anjo da sombra ali, o bola de praia de zebrinha. É tudo porque ele tá correndo atrás de mais uma migalha, que é esse elogio vindo do pai e também, gradativamente, esse elogio vindo da Misato, que são as duas pessoas que mais importam pra ele.

Só que aí a gente já tem uma discussão super foda pra ter. E pra mim, se

o episódio acabasse ali, já seria: caraca, que foda, que bom, que bacana que a animação tá parando pra discutir todas essas coisas, pra discutir esses conceitos. E isso, porra, é muito, muito legal, porque todo esse papo de perspectiva, das versões de nós mesmos, tudo mais, ajuda, querendo ou não, a gente a chegar num ponto de paz. Quando a gente para pra pensar que a gente não tem controle sobre essas coisas, a gente para de se preocupar com essas coisas, a gente para de pesar essas coisas, a gente para de colocar a opinião das outras pessoas como o norte da nossa bússola interna.

E claro que é muito difícil fazer isso. Eu tô, sei lá, quase um ano e meio fazendo terapia e ainda tô raspando a unha na superfície disso em mim mesmo. Mas é importante.

É muito legal a gente parar um pouquinho pra discutir sobre essas coisas numa animação de robô dando porrada em monstro. Então eu achei muito foda.

Mas não para por aí, porque tem um momento em que o Shinji tem alguns lapsos de memória, saem alguns flashes, um flash de 2004, que é o ano que a mãe dele morreu, sobre a possibilidade do pai ter matado a mãe. E ele confrontando essa afirmação, dizendo que não, a mãe estava sorrindo, e isso e aquilo. Então são algumas memórias que provavelmente o Shinji apagou, porque ele não estava preparado para lidar com essa memória.

E isso me chama muito a atenção, porque o mesmo aconteceu comigo. Eu perdi a minha mãe muito cedo, minha mãe morreu de câncer quando eu tinha 5 anos de idade,

e eu não lembro de nenhum momento dela doente. Eu não lembro. Obviamente, conversando com familiares, minha avó e tudo mais, ela menciona que sim, a gente foi visitá-la no hospital várias vezes, e eu não lembro. O velório eu não lembro. Eu lembro do carro se aproximando de onde ia ser o lugar da cremação, e é isso, e puf.

Então o nosso cérebro tem algumas saídas de emergência em que ele fala: ok, você não vai saber lidar com isso, eu não preciso te mostrar isso agora ou talvez nunca, porque isso não vai te trazer nada de bom. O cérebro automaticamente tem isso, ele faz o possível pra nos proteger.

Então, quando o Shinji tem esses flashes, é interessante, porque eu não tenho flash nenhum

não tenho absolutamente nada, isso se perdeu. E por mais que eu sinta falta de lembrar de mais memórias da minha mãe, sinceramente eu acho que eu tô de boa sem essas memórias da coitada da mulher no hospital.

Mas é interessante ver isso sendo utilizado de uma maneira narrativa na animação. Afinal de contas, esses lapsos de memória que ele teve, esses flashes, eles são confiáveis? Eles não são confiáveis? Ele tá lembrando de algo, mas tá lembrando distorcidamente de algo? Existe essa palavra, distorcidamente? Ele tá lembrando de uma forma distorcida desse fato? Então a gente ainda não sabe. Mas é legal eles trazerem esse tipo de coisa narrativamente.

Eis que ele, depois de tudo isso, acorda, retoma a consciência, mas vê que realmente tá no limite da energia, tanto do Eva quanto da roupa dele.

E naquele momento o Shinji tá muito cansado, ele tá muito exausto de tudo, porque ele acabou de ter uma discussão em que a própria existência dele é não desafiada, é provocada. O que o Shinji criança fala pra ele é que a sua motivação pra viver não é boa o suficiente. E nesse momento ele desiste, ele aceita morrer, tanto que a animação fica um bom tempo na cara dele, num corpo inerte. O Shinji morreu ali.

Mas aí vem mais uma coisa que, socorro, que o espírito da mãe dele vem pra salvar o guri. E claro, de novo, sempre tem aquela questão de que isso pode ser uma metáfora, ou pode ser factual. Pode ser o espírito mesmo. E foda-se, sei lá. Tem monstro gigante,

tem Jesus, sei lá, deve ter também espírito nas coisas. Mas ele é salvo. E de novo aquele papo que eu falei brincando de que o Eva era mãe do Shinji: cada vez mais eu sinto que provavelmente é isso aí. Provavelmente agora que vem esse negócio: ah não, foi o Ikari que matou a mãe dele, será que o Ikari tava utilizando a mãe dele em experimentos junto com o primeiro anjo, será que o Ikari, sabe. E vem um pouco disso, de que o envolvimento do Shinji com o EVA-01 é muito mais forte, é muito maior.

Então nesse momento, do lado de fora, da outra dimensão… Outra dimensão! Na nossa dimensão… Nossa dimensão! Nossa, caralho, velho. Ainda bem que eu me divirto muito sozinho. Na nossa diversão…

Na nossa diversão! Ô, Jesus! Ô, Jesus da Goiabeira, desgraça!

Na nossa dimensão, a NERV tá se preparando pra efetivamente fazer aquele plano louco lá da Ritsuko, que é jogar um monte de bomba atômica em cima do anjo - sei lá com o que isso ia funcionar, pra falar a verdade. Mas não: a bola de zebra de praia fica toda preta, como se o anjo tivesse trocado de lugar e na verdade ele estivesse agora naquela esfera, e o Eva sai sozinho dela, ele arrebenta aquele anjo por dentro. E é uma cena maravilhosa, maravilhosa, porque o Eva caindo numa chuva de sangue,

puta que pariu, que coisa linda que é isso. Mas o Eva sai sozinho, o que de novo mostra o quanto o Eva tá se esforçando pra salvar o Shinji. Claro que a gente pode olhar como também um instinto de autopreservação, de que o Eva na verdade tava tentando se salvar, mas a gente sabe que não: ele tava tentando fazer o esforço pra salvar o Shinji, que é a mãe dele. Se for realmente a mãe dele eu vou ficar tão feliz.

E quando o Eva sai, a Asuka toma consciência do monstro que ela tá controlando, e isso é muito legal, porque a água começa a bater na bunda dela também. E isso, na parte de expectativas, já coloca aí que uma das coisas que eu espero é a reação da Asuka no futuro.

Nesse momento também a Misato diz que os Evas não são só uma cópia do primeiro

anjo. E ela se pergunta o que a NERV vai fazer com eles quando todos os anjos forem destruídos. Então volta um pouco naquela discussão nossa da motivação por trás do governo japonês em estar espionando um pouco a NERV. Se você tem armas tão potentes e tão fortes de destruição como os Evangelions, quando você não tem mais inimigos, as armas que você construiu contra eles podem ser muito bem utilizadas contra outros.

E é por isso que na nossa realidade atual tem muita essa discussão em relação a bombas nucleares, bombas atômicas, esses armamentos de maior escala que os países tem uma possibilidade de adquirir, de ter essa posse, justamente pra que a guerra não aconteça, pelo equilíbrio

de destruição que um pode fazer com o outro. Porque se um tá muito na frente, se um tá muito separado, se um tá muito unânime, nada impede esse um de, depois… No caso da realidade de Evangelion, beleza, tá ali todo o poder com a NERV contra os anjos. Depois que não existirem mais anjos, o que assegura que a NERV não vai se voltar com todo esse poderio, com toda essa tecnologia, contra a própria terra, pra se garantir num lugar constante de poder, de status, de segurança militar e todas essas coisas?

Então é um questionamento também muito importante, mas também é um questionamento muito positivo da Misato, porque na cabeça dela os anjos vão acabar, e eles vão destruir todos, e ela já tá pensando no além, o que é bem interessante.

De qualquer forma, o Eva cai naquela cena maravilhosa, com aquele monte de sangue pra tudo quanto é lado. A Misato abre o pod do Shinji desesperada pra ver o menino, pra ver se ele tá bem, e chorando e tudo mais, e ele fala que ele só queria ver ela de novo. O que dá pra gente uma impressão de como o relacionamento dele está melhorando, de como a Misato tá assumindo um papel de família pro Shinji - afinal de contas, pelo que a gente tem de informação até esse momento na animação, ele não teve isso.

E eu acredito que também, pela Misato se enxergar tanto no Shinji, é impossível pra ela negar a ele esse tipo de coisa. Ela sabe que ela precisa ser dura com ele, ela sabe que ela precisa. Tanto que tem até um comentário engraçado da Asuka, que ela fala: ah, você não falou que você ia dar bronca nele? E a Misato tá abraçando o moleque chorando.

Então é bacana, é muito bacana ver com o que a relação dos dois tá se desenvolvendo.

No fim, termina com a Ritsuko dizendo pro comandante Ikari que, se o Shinji e a Rei descobrirem o segredo dos Evas, eles nunca iriam os perdoar. E aí mais uma pulguinha que vem aqui, bonitinha, subindo uma escada que eu deixei aqui ao lado da minha orelha pra se instalar realmente aqui, bem onde eu tenho uma pinta aqui na pele, atrás da porra da minha orelha. Porque do Shinji faz todo sentido, toda essa questão de relação dele com o Eva dele, provavelmente a mãe entrando nessa equação e tudo mais.

Mas e a Rei? Por que a Rei reagiria dessa maneira, sabe? Então eu fico muito curioso.

E esse foi o episódio, cara. E dado o tamanho desse podcast, socorro, a gente sabe que ele trouxe e levantou muitas discussões bacanas. Acho que não preciso nem dizer novamente, mas, partindo pras considerações finais, foi um episódio muito positivo, muito, muito legal, principalmente porque eu sinto que essas discussões filosóficas, essas discussões que a animação propõe, elas não são nem discussões muito profundas. Não é como se, nossa, caralho, o Evangelion é um caralho, não é isso. Tanto que uma pessoa burra como eu consegue extrapolar em cima dos conceitos que eles trazem, e por isso que é bacana.

Mas eu sinto que esse tipo de discussão

é interessante quando você coloca numa mídia popular como animação, e que geralmente as pessoas que vão consumir essa animação são mais jovens. E porra, que legal que é você propor, que é você trazer pra mesa esse tipo de coisa. E mesmo se fosse, sei lá, uma animação feita pra gente velha, ainda assim é legal trazer esse tipo de conceito, é legal trazer esse tipo de discussão, é legal trazer um pouquinho dessas provocações, porque fazem com que a gente pense um pouco sobre isso e até ajude a tirar algum peso da nossa própria vida.

Toda essa questão de não ter controle e tudo mais, e não ligar muito pra nossa versão dentro de cada uma das pessoas que estão ao nosso redor todos os dias, deixa a gente um pouco mais leve, na verdade, quando você realmente internaliza isso. Então é legal, eu fico muito feliz que a animação traz esse tipo de discussão.

E expectativa, eu já adiantei

que eu quero muito ver a maneira, se a Asuka vai mudar um pouco a atitude dada esse confrontamento dela com a realidade dos Evas.

Quero também, gente do céu - eu sei que eu peço isso em todo episódio - mas por favor, dá umas migalhinhas sobre o passado da Rei, por favor. Falta nove episódios. Nove? É nove? Eu acho que é nove. Falta dez episódios. Dez, nove, oito, onze episódios, gente. Eu não sei, de verdade. Eu realmente não sei fazer conta aqui. Mas, porra, dá um pouquinho, sabe? Um pouquinho de informação sobre a Rei. Por favor. Por favorzinho.

E também eu quero ver mais sobre o Kaji. Porque depois dele soltar aquela bomba no último episódio, eu quero muito ver o que vai acontecer com ele. Por mais que eu tenha tido minhas dificuldades com o personagem, agora eu tô um pouco preocupado em relação à segurança dele. Então

é isso que eu tenho de expectativa para os próximos episódios. Gente, é isso, eu espero que vocês tenham gostado. Se vocês quiserem dar algum feedback sobre o podcast, em todas as redes sociais eu sou Caio Corraini. Novamente deixo pra vocês um grande abraço e tchau, seus lindos.

Esse podcast foi produzido pela Maremoto.