Pokémon Pocket e TCG
O episódio em que tento te enfiar num esquema de pirâmide: Pokémon Pocket, a coleção 151 e a maldição do colecionador batendo na porta de um adulto com cartão de crédito de limite desnecessariamente alto.
E a tangente que vale o episódio: o poema premiado pelo Mário Covas que acabou com a minha poesia e por que eu preciso reaprender que hobby não é competição.
Primeira vez por aqui? Como o programa e este formato funcionam
Neste programa eu encaro uma obra pela primeira vez e capturo todas as minhas reações e sentimentos ao vivo. Pode ser filme, série, jogo, livro, quadrinho e o que mais der pra encapsular em áudio.
Aqui a obra vai a julgamento. Um jogo, um mangá, uma mania que tomou conta da internet: eu experimento e o episódio é sobre por que aquilo funciona (ou por que não).
Formato aberto, sem fim marcado. Mas sempre volta quando aparece algo que mereça o teste.
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Editada para leitura: saíram as repetições, os vícios de linguagem e os falsos começos. Nenhuma palavra foi trocada nem acrescentada.
Olá, Personas! Meu nome é Caio Corraini e estamos começando mais um episódio do período de testes. Esse é um espaço em que eu vou utilizar pra discutir mais brevemente sobre algo que eu tô lendo, jogando, assistindo, fazendo, né? E dizer pra vocês se vale a pena fazer isso também. Pra esse episódio, eu vou basicamente tentar enfiar vocês num esquema de pirâmide. Partiu o episódio? Meus amores, vamos lá! Começando com a ficha técnica. Iniciando pelas cartinhas: o Pokémon Trading Card Game foi lançado originalmente em outubro de 1996. Aqui no Brasil, o jogo chegou só no ano 2000, pela Devir, com a Copag - sim, a Copag de baralho de carta de truco - assumindo a produção dele em 2011.
De acordo com alguns levantamentos, mais de 200 mil cartas de Pokémon já foram lançadas. Se a gente levar em consideração todas as coleções, versões especiais, cartas exclusivas de campeonato e tal, essa lista vai embora. Já o Pokémon Pocket foi lançado no último dia 30 de outubro, para iOS e Android, trazendo uma versão simplificada do jogo e uma nova oportunidade de atiçar a maldição do colecionador em todos nós. Passada a ficha técnica, é importante oferecer um pouquinho mais de contextualização pra vocês. Eu fui uma criança aficionada em Pokémon. Eu assistia todos os dias o desenho no programa da Eliana e queria dar um tiro no meu cu quando o Ash deixava um bicho foda tipo a Butterfree ou
Charizard embora. Eu colecionei a espécie de super trunfo dos bichinhos que vinham nos salgadinhos da Elma Chips - e era legal pra caralho de sentar e jogar efetivamente aquele card game com os amigos. Eu terminei duas vezes o Pokémon Yellow no Game Boy do meu primo, capturando tudo que era possível. Assim, o negócio me pegou bem forte. Só que, conforme o tempo passava e novas gerações iam sendo incluídas, eu fui me perdendo em meio a tanto bicho, e perdendo também o interesse na propriedade intelectual. Além disso, né, havia também o fato de que eu tava envelhecendo, mas a franquia não. Tem um motivo pelo qual o Ash nunca passou de 10 anos, que é justamente pro público-alvo da animação se identificar com ele. Então, como naquela cena de Velozes e Furiosos em que os carros seguem por estradas diferentes,
eu e Pokémon aceleramos em direções opostas do horizonte.
Só que a gente tem poucas certezas nessa vida. O sol vai nascer um dia depois do outro? A gente vai morrer? E a nostalgia por coisas que fizeram parte da nossa infância vai voltar pra nos assombrar em algum momento. Eu passei mais de 20 anos sem me importar com Pokémon. Mas foi com a chegada do Pocket que eu percebi que, na verdade, eu ainda amo demais esses animaizinhos feitos pra vender jogo, pelúcia e papelão. Com a diferença de que atualmente eu sou um adulto mediamente bem sucedido e com acesso à porcaria de um cartão de crédito com limite desnecessariamente alto. Então, poucos dias depois de começar a abrir os pacotinhos virtuais no jogo, eu tomei a decisão de que aquilo não era o suficiente. Eu precisava encher a minha casa com mais lixo.
Mais um lixo caro e específico: as cartinhas da coleção 151 de Escarlate Violeta. Porque, se tem algo que a Pokémon Company não é, é burra. Eles sabem que a gente tá quase fazendo 40 anos de idade. Eles sabem que, quando eu vejo a imagem de um Venonat, tem alguma parada dentro da minha alma que faz um: que coisa mais fofa, essa bolha roxa com olho de mosca. Então esses arrombados lançaram em 2023 essa coleção do TCG focado nos 151 pokémons iniciais. O que eles não contavam é que eu só ia saber que isso existe um ano depois, em que essa merda agora tá extremamente cara e limitada. Mas tudo bem. Pra quem não tá por dentro desse esquema de pirâmide,
a Pokémon Company lança uma nova coleção de cartas a cada dois meses. Só em 2024, a gente teve Destinos de Paldea, Forças Temporais, Máscaras do Crepúsculo, Fábulas Nebulosas, Coroa Estelar e agora Fagulhas Impetuosas. Todas elas com as suas centenas de cartas. Eu não tô inventando isso: é um mercado ativo e absurdamente lucrativo. Atualmente eu tô registrando no meu perfil do TikTok e do YouTube o caminho em direção ao master set de 151 Escarlate Violeta. Com vídeos curtinhos, né, abrindo um pacote, discutindo sobre a coleção e tal. Tá sendo muito divertido, ao mesmo tempo em que é um buraco sem fundo em que você joga a sua carteira e ela não volta nunca mais.
Tipo, no final de semana da publicação desse episódio, eu vou num evento de card game que vai rolar no Shopping Frei Caneca, em São Paulo. Pra quê? Pra gastar mais dinheiro em papelão. A coitada da minha namorada sabe que eu vou pegar umas duas horas do nosso dia pra bater perna e trocar cartinha com os outros. Mas, assim, eu queria que vocês me dessem a mãozinha nesse momento. E, partindo numa tangente, eu quero usar a motivação por trás desse episódio pra discutir sobre algumas coisas mais profundas. Vocês podem ficar tranquilos, vai fazer sentido. Vamos lá. Eu acabei de comentar sobre os vídeos que eu tô fazendo abrindo pacotinho de carta. Hobby esse que eu acabei de começar.
E eu sou viciado em transformar os meus hobbies em conteúdo. E essa é uma conversa que eu já levantei algumas vezes com a minha terapeuta, porque acaba esbarrando em diversos outros aspectos um tanto complicados da minha personalidade. A minha principal motivação em desenvolver conteúdo é justamente para externalizar uma necessidade criativa que eu tenho. Eu sou uma pessoa da comunicação, porra. A minha vida é pautada na expressão de ideias, sejam as minhas ou a dos outros - no caso, os meus clientes. Mas um dos lados negativos disso é a qualificação do sucesso, entre aspas, que as redes e plataformas acabam empurrando pra gente o tempo todo. Se a minha motivação gira ao redor da minha ansiedade de me expressar criativamente pro mundo,
isso significa que, no fim do dia, eu tô cagando pros números relacionados ao que eu desenvolvo, certo? Pois é. Errada.
Então, gradativamente, o desenvolvimento de conteúdo, que deveria ter um fim em si mesmo - com o prazer sendo diretamente e unicamente atrelado ao ato de criar -, vai, pouco a pouco, também se fundindo ao quão bem aquele conteúdo performou. E aí que mora a maior armadilha.
Quando eu era pequeno, na mesma época que eu era apaixonado por Pokémon, eu não tinha acesso à internet. E eu adorava escrever poesia. Aquilo era só pra mim. Eu nunca mostrava pra ninguém. Eu fiz aquela merda por anos, desde que eu fui alfabetizado, até o dia em que eu, infelizmente, mostrei pra alguém e eu ganhei um prêmio por isso. Eu vi na minha escola um concurso estadual de escrita criativa pra crianças, e eu escrevi um poema que eu tinha feito sobre uma folha de árvore que não aceitou cair na passagem do outono pro inverno. Pois é, eu ganhei aquela merda. O Mário Covas apertou a minha mão e me deu uma medalha.
E aquilo acabou comigo. Porque não era mais pelo prazer de escrever. Tinha se transformado pelo prazer de ganhar. E eu nunca ganhei mais nada escrevendo. Pois bem. Muitos anos depois, eu me apaixonei por podcast. Eu fazia programa pra mim, aprendia a editar sozinho, pelo prazer de ter a minha voz registrada falando sobre as coisas que eu amava. Mas aí eu fiz o Games on the Rocks, que acabou virando o maior podcast de games do Brasil. De novo: não era mais pelo contento do fazer, era pela necessidade de ser o maior. Hoje, com esse programa, com o Minha Primeira Vez e com os videozinhos que eu posto no YouTube, no TikTok, eu tenho noção de que eu não vou explodir, de que eu não vou vencer, de que isso aqui não é a porra de uma competição.
Então, pouco a pouco, um dia depois do outro, eu vou tentando internalizar novamente de que a felicidade precisa retornar para o fazer. Que essas migalhas de mim mesmo que eu deixo para o escrutínio constante de vocês já são o suficiente para me fazer inteiro. Porque senão deixa de ser hobby, virar trabalho. Deixa de ser algo com que eu ocupo meu tempo livre com a expectativa de que acerte outras pessoas e as alegre, as entretenha, as distraia, e vira um peso. Então, sim, eu usei um episódio sobre cartinhas de Pokémon pra arrastar vocês pra uma discussão filosófica sobre a desumanização das nossas personas online através de uma competição digital por views, seguidores, plays, números num geral que, como no capitalismo, precisam
ser maiores que os anteriores, senão você é um fracasso. Mas, bem, finalizando esse período de testes: eu recomendo que vocês colecionem cartinha de pokémon, é mó legal. Eu tô enlouquecendo. E é isso, gente, eu espero que vocês tenham gostado. Apresentem o pokémon… pokémon? Um podcast pra pessoas que possivelmente possam curtir o conteúdo. Se vocês quiserem me dar um feedback sobre o podcast, em todas as redes sociais eu sou Caio Corraini. Lembrando que o Minha Primeira Vez é um original Maremoto, que é a minha empresa.
Então, se você quiser o envolvimento da nossa equipe fantástica no seu projeto, manda um oi pra gente pelo contato@maremo.to. A edição é, como sempre, da querida Ana Mariquito. Um grande abraço. Sejam bons uns com os outros. E tchau, seus lindos.
Esse podcast foi produzido pela Maremoto.