O mundo pula a cerca quando a vista compensa
A Maremoto tá produzindo um podcast pro pessoal do ClimaInfo, uma organização que cobre clima e transição energética, e tem um detalhe na estrutura que particularmente gosto muito: os episódios são alternados. Um em inglês, com especialistas internacionais, e o seguinte em português, com vozes nacionais, falando de Brasil, energia renovável, do país como próximo polo verde do mundo.
Faz todo sentido nesse tema. O Brasil preside a COP até novembro, tem uma das matrizes elétricas mais limpas entre as grandes economias e virou assunto obrigatório quando o mundo fala de transição. Somos autoridade e o estrangeiro tem motivo de sobra pra querer ouvir nossas opiniões. Mas foi depois que esse trabalho me jogou numa ideia lateral.
Nós temos um país auto-suficiente de conteúdo. 215 milhões de pessoas é uma caixa de areia grande o bastante pra ninguém nunca precisar brincar fora dela. A língua é uma parede, claro, mas a parede mais alta é não ter necessidade: quase tudo que se produz aqui é de brasileiro pra brasileiro, e tá ótimo assim, então pra que o trabalho extra?
Aí tá o que acho que a gente não enxerga. Pega os nossos maiores acertos de narrativa, tipo A Mulher da Casa Abandonada ou O Caso Evandro. À primeira vista são impossíveis de exportar. Pra um gringo entender o Caso Evandro, você teria que explicar o Brasil de outra década, como funciona nossa polícia, nosso sistema judicial, a imprensa da época. Dá um trabalho hercúleo. Quase vira um projeto novo do zero.
Só que é exatamente aí que mora o valor. Esse trabalho de explicar o Brasil não é o estorvo, é o produto. Eu ouviria um true crime da Indonésia amanhã, não “apesar” de não conhecer nada de lá, mas justamente pra conhecer. O crime é a desculpa. A janela pra dentro de como aquela sociedade funciona é o que segura. Quando a gente leva uma história brasileira pra fora, tá oferecendo um pedaço de quem a gente é pra quem nunca seria alcançado por isso.
E o mundo já provou que pula essa cerca quando a vista vale a pena. Round 6, La Casa de Papel, Narcos, o Parasita ganhando o Oscar de melhor filme. Bong Joon-ho chamou a legenda de “barreira de uma polegada” que o público hoje atravessa sem pensar. O apetite por história de fora existe e tá grande. Falta a gente, do lado de cá, perceber que tem vista de sobra pra oferecer.
Não é receita pra todo mundo sair traduzindo podcast amanhã - adaptar de verdade custa caro e dá trabalho de obra nova. É mais um país inteiro acostumado a conversar só pra dentro, sentado em cima de histórias que o mundo acompanharia fascinado. Esse bilíngue de clima me lembrou disso. E eu fico pensando no tanto que a gente tem pra contar.
Casa do Corra