O YouTube virou o porteiro do podcast brasileiro
Quando tocava o Games on the Rocks, descobrir um podcast novo funcionava de um jeito que praticamente não existe mais. A gente convidava pessoas de outros programas de jogos pra gravar conosco e eu ia gravar nos deles. Todo mundo de um nicho se conhecia e esse revezamento era exatamente como tu apresentava teu trabalho pra uma audiência que nunca tinha ouvido falar de ti.
Isso virou outra coisa. Onde antes existia uma comunidade meio bagunçada e porosa, em que você esbarrava o tempo todo em programa de fora da tua bolha, hoje existem micro-panelas. Cada produtor tem os seus três ou quatro parceiros de troca e a audiência fica circulando dentro do mesmo loop fechado. Sumiu até aquele ritual de perguntar pra alguém “que podcast você ouve?” e sair com um nome que nunca tinha escutado debaixo do braço. Uma amiga minha fazia o #PodcastFriday, todo mundo postando o melhor programa que ouviu na semana. Morreu. Pode ser saudosismo meu, gente se distanciando, o tempo passando. Mas alguma coisa real se perdeu nesse caminho.
E tem dado pra mostrar o que ocupou o lugar. Saiu um estudo agora nos Estados Unidos em que o maior canal de descoberta ainda é a indicação por outras pessoas: 64%. Aqui no Brasil é outro planeta. Uma pesquisa do ano passado apontou que 81% dos ouvintes semanais descobrem podcast pelo YouTube, na frente de Instagram e Spotify. Indicação de amigo ou família? 11%. A gente terceirizou a descoberta quase inteira pra uma plataforma só.
E aqui está o que me incomoda, que vai além de “o YouTube venceu”. O YouTube não faz florescer qualquer programa - ele empurra o que nasce pra vídeo. Mesacast, entrevista, programa que ganha alguma coisa quando você liga a câmera. O podcast narrativo, de áudio, com sound design caprichado e roteiro fechado, aquele que é uma obra feita pro ouvido, não desabrocha ali. E como a descoberta hoje passa quase toda por esse funil, esse tipo de trabalho vai ficando invisível. Não por ser pior. Mas por não traduzir seu valor pra plataforma que virou dona da descoberta.
Então ela não mudou só de endereço, mudou de regra. Antes a descoberta passava por gente e gente recomenda qualquer formato, inclusive o esquisito e autoral. Agora passa por um algoritmo que premia um feitio só. O que me deixa pensando é que, lá fora, o canal mais forte continua sendo o mais humano: uma pessoa virando pra outra e dizendo “acho que você vai gostar disso aqui”. Talvez seja justamente isso que a gente deixou enferrujar por aqui. E talvez valha a pena reaprender, porque é a única porta que nenhuma plataforma controla sozinha.
Casa do Corra