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Casa do Corra
Mercado

Pobreza disfarçada de inovação

28 abr 2026

Um tempo atrás, um cliente pediu voz de IA pra locução num projeto que estávamos orçando. A gente tinha proposto contratar um locutor humano - ou, se o orçamento apertasse, eu mesmo faria o trabalho, a custo zero. Ele preferiu IA.

Na mesma produção: trilha de IA no lugar de um banco de música licenciada (oferecer trilha original então? Cê tá louco?). Roteiro passado pra IA no lugar do roteirista humano que a gente tem.

Três pontos do processo em que a escolha entre humano e máquina muda materialmente o resultado final. Três pontos entregues pra IA sem pensar duas vezes.

Antes que alguém cite o spam de conteúdo IA bombando no Spotify, YouTube ou Tiktok: esse não é o meu problema. O perfil que raspa thread do Reddit, coloca voz sintética e Subway Surfers rodando no fundo sempre existiu - antes com voz robótica qualquer, agora com ElevenLabs. É outra briga, de outra gente. Quem produz com intenção não tá nesse jogo.

E não é abominando a IA como ferramenta em si. IA como apoio em partes específicas - pesquisa, triagem, limpeza técnica - é ferramenta como qualquer outra (lembram quando a gente chamava isso de “automação”? Juntaram tudo no mesmo nome, deu no que deu). O que eu tô falando é a versão em que IA vira a entrega final.

A briga que me importa é essa. E pra explicar ela, preciso de um princípio que eu repito até cansar: tempo é o bem mais valioso que o público te oferece.

Dinheiro, se tu investe errado, é um inferno, mas volta. Você segura as pontas, ajusta o orçamento, renegocia uma conta, almoça uns miojos e em alguns meses (ou anos, risos, tamo junto) tá de novo no azul. Tempo não funciona assim. Minuto gasto consumindo merda é minuto que nunca mais volta e o ouvinte sabe disso - mesmo que inconscientemente.

Se a empresa não trata o tempo de quem consome o conteúdo dela com respeito, esse consumo não dura. Ponto.

E tem outra coisa estranha agora: empresas aceitam, como entrega final, resultados de IA que jamais aceitariam de um humano.

Se um narrador pronuncia errado o nome do cliente, vira retrabalho na hora - às vezes o episódio inteiro é regravado. Se a IA faz a mesma coisa, mudando de tom no meio do programa ou errando ênfase de palavra aleatória, vai pro ar. Se o designer entrega arte com caractere borrado ou mão com seis dedos, é rejeitado imediatamente (a pessoa toma uma voadora na nuca, inclusive). Se a IA entrega, tá tudo certo, tudo lindo, tudo show. “Sobe logo que já tem de gerar o próximo”.

Por que essas empresas acham que a audiência delas vai aceitar menos do que elas mesmas aceitariam?

Minha aposta: daqui a um ou dois anos, a gente vai olhar pra essa leva de conteúdo feito às pressas com IA bruta do jeito que olha hoje pra layout tipo do MSN Messenger. Marca de uma época em que a empresa optou por parecer moderna em vez de ser boa. Pobreza disfarçada de inovação.

Quem respeita o tempo do público no fim recebe atenção de volta. Tem sido assim sempre. Não vejo motivo pra ser diferente dessa vez.