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Casa do Corra
Mercado

Podcast de qualidade não surge do chão

14 jul 2026

Quando eu escuto um episódio que me pega de verdade, meu primeiro impulso é ir atrás de quem fez aquele podcast. Não o host. A pessoa que editou, que pesquisou, que escreveu o roteiro. Quero achar a rede social dela e mandar um “teu trabalho tá absurdo”. Na imensa maioria das vezes, não consigo. Abro a descrição do programa e não tem crédito nenhum.

Tem quem apresenta, às vezes a marca que financia e acabou. “Programa produzido pela Empresa Tal.” As pessoas que fizeram aquilo que eu amei sumiram atrás do nome de um CNPJ. Não dá pra agradecer a editora, não dá pra achar o roteirista, não dá nem pra saber que eles existiram.

Isso me incomoda desde sempre, porque é uma escolha: listar quem participou do projeto dá zero trabalho. Claro que existem programas feitos por uma pessoa só, que é host, editor e faz-tudo. Mas quanto mais complexa a produção, mais gente carrega aquilo nas costas e mais estranho fica não ver o nome de ninguém.

Creio que o podcast herdou isso de outras indústrias. No cinema, só o diretor costuma ser lembrado, como se um filme bom não fosse erguido também pela edição, pela produção, por quem faz cada efeito. Mas eles pelo menos sempre contam com os créditos - que ninguém vê, mas estão lá. Na música, quando entrevistam uma banda, tende a sobrar só o vocalista. Com podcast é idêntico: todo mundo associa o programa a quem fala no microfone e o time que constrói o conteúdo inteiro vira plano de fundo.

E o problema vai além do elogio que eu não consigo mandar. Quando esse pessoal todo fica invisível, o mercado passa a achar que programa bom acontece sozinho, surge do chão. É essa invisibilidade que faz o ofício ser subvalorizado e mal pago. Esbarro nisso toda vez que preciso de profissionais específicos e a oferta não dá conta: a gente apagou tanto as funções que quase ninguém foi estimulado a ficar excelente nelas.

O conserto é ridículo de simples: bota a porra dos créditos. Nome de quem pesquisou, editou, roteirizou, ali na descrição. Não custa nada e devolve cara pra quem faz. Na Maremoto a gente sempre exige isso. De vez em quando o cliente barra e não tem jeito, mas a cobrança tem que partir de quem produz. Da próxima vez que um episódio te ganhar, vai atrás de quem colocou a mão na massa e manda um alô. Talvez seja a primeira vez que aquela pessoa escuta que o trabalho dela foi visto.