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Casa do Corra
Mercado

O nicho real é o ponto de vista

26 mai 2026

A “explosão das verticais de nicho” tá em todos os relatórios de podcast em 2026, com uma tese direta vindo junto: projetos com temáticas específicas tendem a ir melhor que os genéricos. Tem verdade nisso, mas vale olhar com mais calma.

Olha o top brasileiro do ano passado. Pega três programas entre os cinco maiores: Inteligência Ltda, Podpah e Jota Jota. Três pontos de vista distintos, mas dentro de cada um, o que rola é generalidade. O recorte que faz cada um funcionar não é o tópico estreito - é o ponto de vista de quem conduz.

Esse pra mim é o ponto chave da conversa: o nicho real é o ponto de vista, não o tópico abordado.

Dando um exemplo de dentro de casa: a Maremoto produz o Portas Abertas, que é um podcast de entrevistas da Loft com profissionais do mercado imobiliário. Donos de imobiliária, executivos, gente que tocou o setor por décadas. Como começaram, dificuldades reais, estratégias de negócio, etc. É nichado, sim, porque o universo é específico: imobiliária falando com imobiliária. Mas dentro desse ecossistema, o escopo de conversa é amplo - e essa amplitude é o que dá combustível pra rodar.

Se o recorte fosse “entrevistas com corretores de coberturas que recebem o sol da tarde em São Paulo”, o programa esbarraria num teto bem cedo. E aí entra outra camada da conversa.

A especificidade ajuda até certo ponto. Quanto mais cirúrgico o recorte, mais finito pode ser o projeto - tem hora que o assunto se esgota. Programa que fala “sobre tudo dentro de um ponto de vista” tem combustível pra rodar anos. Projeto hiperespecífico naturalmente vira coisa pontual - temporada, minissérie, lançamentos semestrais ou anuais. E isso é planejamento, não defeito.

Outro exemplo, agora de especificidade sendo usada de maneira inteligente: a Natura fez uma parceria com o Mamilos no “Era Uma Vez” - cinco episódios sobre o ciclo de violência contra a mulher, com especialistas e perspectivas distintas em cada um. Recorte claro, conversa profunda, começo, meio e fim definidos. A cada ciclo, abre espaço pra outra minissérie, outro tema, outras vozes. O valor da marca, nesse caso, é financiar as conversas que importam pro seu público-alvo.

Então a discussão útil pra quem tá pensando em entrar em podcast hoje talvez não seja “nichado ou genérico”, e sim “qual dos dois jogos faz mais sentido pra minha marca?”. Programa contínuo com escopo amplo e ponto de vista forte (formato Portas Abertas) ou série finita com recorte cirúrgico e interlocutor com lugar de fala (formato Mamilos/Natura). Cada um pede roteiro, equipe e modelo diferentes.

Na manchete o “nicho vence genérico” funciona. Na hora de planejar vale separar o que é nichado pelo tópico do que é nichado pelo ponto de vista. Os dois têm lugar e cada um pede uma decisão diferente lá na largada.