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Casa do Corra
Mercado

Respeite o RSS

04 ago 2026

Semana passada contei aqui que fui convidado pra um videocast e passei a entrevista inteira explicando o mágico conceito de “podcast só de áudio”. Pensando depois, me caiu a ficha. Entrei no vestiário antes da final da Champions pra fazer preleção sobre o campeonato de bairro que a gente ganhou lá atrás. Citei os craques daquele time - com um orgulho danado - e os guris me olhavam sem fazer ideia de quem era nenhum deles.

O time é o mesmo, veja bem. Mas quem entra em campo hoje nasceu depois de tudo aquilo e pra essa molecada o clube começou no dia em que ligaram a TV pra ver.

Falo nisso porque, quatro dias antes daquele post, doze empresas do setor colocaram no ar lá fora uma ~definição oficial de podcast~. Programa sob demanda, ancorado na palavra falada, que continua compreensível como áudio. O atalho que pegou foi: “se funciona de olhos fechados, é podcast”. Vale pra vídeo ou áudio, RSS ou não.

Já fui o cara que brigava por isso na internet. “Não é podcast, é um vídeo do YouTube com dois microfones na mesa.” Bradava, com toda a convicção do mundo. Hoje eu não corrijo mais ninguém. Pode ser em áudio, pode ser em vídeo, tanto faz. Só uso a palavra videocast porque o mercado adotou.

Voltando à cartilha dos gringos. Aquela parte dos “olhos fechados” até tem sua serventia. Já ouvi um programa que chamou um ilusionista e o sujeito passou um tempão fazendo truque de carta. Escolhe uma. Agora tá na minha mão direita. Agora na esquerda. Quem tava no áudio não entendia porra nenhuma.

Mas tem um pedaço que essa definição descartou de propósito e é logo o que eu acho imprescindível: RSS ou não. O que faz um programa ser podcast é ele viver num lugar onde você assina e é avisado. Saiu episódio novo, chega a notificação e você escuta quando der.

O ímpeto de quem consome é outro. No YouTube não te avisam de nada, eles te servem. Você abre o app e a home é uma salada de canais que acompanha, vídeo que já viu há quatro anos e o que o algoritmo apostou que te segura mais tempo ali. Faz todo sentido pra eles, o negócio da casa é esse. Fica aqui, vai embora não (e eu duvido que você já clicou no sininho).

Mas quando assino um programa, existe um combinado direto entre mim e quem produz. Não tem terceiro nenhum palpitando.

E quem deu essa canetada mesmo? São doze empresas de medição e publicidade com a meta declarada de destravar um bilhão de dólares em verba. Natural que a régua delas guarde o que rende e jogue fora o que não vira inventário. Dono da bola manda no jogo e tá tudo bem.

A discussão que queria estar tendo é sobre dinheiro. Essa padronização toda vai levar a grana até quem tem uma base pequena e fiel, num CPM decente? Ou a gente vende milhões e sobra farelo pra quem não é um dos cinco nomes gigantes?

O resto eu acho divertidíssimo e razoavelmente inútil. Nosso meio não é talhado em pedra. Daqui a pouco inventam de transmitir conteúdo direto por onda cerebral e vou estar lá, ainda procurando onde fica o bendito botão de assinar.