Fordismo de conteúdo
Um bom tempo atrás, fui convidado pra um videocast desses que querem bombar, virar o próximo grande fenômeno. Era pra falar da minha área, que toco há quase vinte anos. Mas aí passei a entrevista inteira explicando o que é um “podcast”.
Não é força de expressão. Pros apresentadores, podcast era entrevista em vídeo na internet e… só. Não sabiam de onde a mídia tinha vindo, como se popularizou, o que rolou no Brasil pra chegar onde chegou. Eu, que era o convidado ali pra contar, sei lá, da minha empresa, virei aula introdutória.
E dava pra ver o esquema: gravavam a toque de caixa, saía um entrevistado e entrava outro, sem parar. A ideia de podcast deles era montar um estúdio bonito, arranjar umas câmeras, uns microfones, chamar gente e ficar rico. Porque é só isso que precisa, né?
Mas não vim aqui dizer que os caras são ruins. Sinceramente, não são. O problema é essa esteira, uma estrutura montada pra cuspir um episódio atrás do outro, torcendo para um corte viralizar, em que ninguém tem tempo de aprender a conversar. Nem eles tiveram chance.
Porque a coisa que nenhum estúdio caro compra é a troca. Quando aceito sentar na tua frente, tô te oferecendo meu tempo e o que levei anos pra aprender, de bom grado. Isso é metade da entrevista. A outra metade é ter alguém do outro lado que quer mesmo estar ali, que se interessou de verdade por quem chamou e por quê.
E olha, já passei por mais de uma centena de podcasts como convidado. O tamanho do programa nunca influenciou na qualidade da experiência. Não importa se eu estava falando pra dez ouvintes ou cinco milhões. O que me alegrava era sentar na frente de alguém que soltava um “cara, acompanho teu trabalho, queria te perguntar sobre tal coisa”. Ali eu sabia que não tava preenchendo um buraco na agenda. Me chamaram porque era eu, não porque precisavam de um corpo pra falar de podcast naquela terça.
Ninguém precisa conhecer a fundo cada pessoa que vai entrevistar. É injusto e leviano da minha parte querer cobrar isso. Mas a diferença entre uma conversa que nos marca e uma linha de produção quase nunca tá no equipamento ou no plano de viralizar. Tá em quem te recebe querer saber quem você é. O resto é fordismo de conteúdo.
Casa do Corra