Prazer, ludita preguiçoso
Toda vez que um podcast entra na minha rotina, parece que ganhei novos amigos. Vou conhecendo as pessoas aos poucos, do que gostam, do que não gostam, no que acreditam, tudo a partir do que elas criam. É uma amizade unilateral, porque sei um monte sobre elas e elas não fazem ideia de que eu existo. Mesmo assim, é isso que procuro quando dou play. Não tô atrás só do conteúdo. Quero a humanidade de quem tá do outro lado.
Podcast feito por inteligência artificial não tem nada disso. Vai além do que eu já chamei aqui de fordismo de conteúdo. Lá ainda tinha gente gravando sem parar, achando que ia vencer o algoritmo pelo cansaço, que de tanto episódio jogado no feed cedo ou tarde a recomendação viria e o programa pegaria no tranco (não é assim que funciona). Aqui nem gente tem.
O que sobra é conteúdo como moeda de troca, e isso me faz mal. Claro que quem produz merece ser pago, porque é trabalho. Só que estamos chegando no extremo dessa linha: tem público procurando tal assunto, a máquina cospe algo sobre ele, uma multidão consome e o dono do canal recebe. Aí a pauta vira tapa-buraco de mercado, quando deveria nascer da vontade de alguém de discutir, pesquisar, investigar o que lhe interessa.
Quem levou essa lógica mais longe foi a Inception Point AI. Em setembro de 2025, ela apareceu no Hollywood Reporter prometendo 5 mil podcasts e 3 mil episódios por semana, a um dólar cada. Com 20 ouvintes, o episódio já se pagava. Na mesma matéria, a CEO disse que quem ainda chama todo conteúdo de IA de lixo provavelmente é “ludita preguiçoso”. O método era mirar o que bombava nas buscas. Em dezembro, o aplicativo Castro tirou os programas dela da busca e acusou a Inception de inundar os resultados pra enganar o usuário. Meses depois do assassinato do Charlie Kirk, quem procurava o nome dele no Apple e no Spotify achava três títulos dela entre os cinco primeiros. Num único dia de abril de 2026, quase um em cada cinco programas novos lançados no mundo era dessa praga. Em português foram mais de 600.
A gênia que estava por trás da maravilha, Jeanine Wright, tinha sido diretora de operações da Wondery, produtora responsável por muita coisa boa. Saber que uma pessoa com poder de decisão num lugar desses olhou pro podcast e pensou “minha oportunidade profissional de ouro é espalhar lixo internet afora até alguém esbarrar nele e me render uma fração de centavo” me deu asco.
Só que não me surpreende. A maioria de quem chega nesse nível não tá ali por dominar o ofício da indústria, e sim por ser competente em ganhar dinheiro. Pra essa cabeça, criar é um problema a ser contornado. Pula o desenvolvimento, a pesquisa, a história pessoal de quem faz, o interesse genuíno de quem acompanha, e vai direto pro caixa. O conteúdo tem que brotar do chão e virar faturamento, de preferência sem pagar ninguém, porque aí não sobra fatia, sobra a torta inteira. É o capitalismo fazendo exatamente o que nasceu pra fazer, e nem adianta procurar ética nisso, porque ele é imoral desde a concepção. Não me abala.
No fim de setembro de 2026, a própria CEO contou no podcast Lead Balloon que eles saíram de mais de 15 mil programas ativos pra uns 300, que nem tentam mais monetizar. Admitiu que parte da publicidade foi “uma estratégia de relações públicas para chamar atenção”, recurso que todo negócio usa, segundo ela, quando vai levantar dinheiro. A empresa virou Liquid Studios e vende pra outras companhias a transformação de catálogo em vídeo, áudio e corte. Ela justificou a mudança dizendo que o B2B tinha mais chance de “achar uma saída”, que em startup significa ser vendida. Quando escrevi sobre as ferramentas de edição, reclamei que o dinheiro desse mercado vai pra IA porque é o que o investidor quer ouvir. Ela falou o mesmo com outras palavras.
A virada faz todo sentido. Quem consome se importa com o que tá ouvindo e assistindo. Tem muito material de IA nas redes sociais e tem quem não ligue, cada um que cuide da própria peneira. Mas em podcast o público se incomoda quando percebe que aquilo foi largado no automático, sem curadoria nem controle de qualidade. Já executivo geralmente pensa só como executivo. “A minha empresa precisa ter a porra de um podcast, porque o concorrente tem também.” É mais um espaço pra ocupar, e ele quer o caminho mais curto até marcar essa caixinha. Pra esse cara, a IA caiu do céu. O robô escreve o roteiro, narra, edita, publica, divulga e foda-se. É o tipo de cliente que, como contei em pobreza disfarçada de inovação, preferiu voz de IA a me ter na locução de graça.
No fim do semestre, quem cuida daquilo monta a tabela pro chefe: “produzimos um trilhão de conteúdos”. Uau, um trilhão. Trouxe negócio novo? Mexeu em algum indicador que não seja o próprio número de publicações? Não, mas quem montou a tabela escolheu contar o fato do jeito que mais o favorece.
Por enquanto, a sintetização de toda a cadeia não ameaça o produtor real, contudo não tenho ilusão de que isso dura pra sempre. Imagem e voz sintética melhoram a cada mês. O vídeo do Will Smith comendo macarrão começou como terror lovecraftiano e as versões atuais já enganam muitos desavisados. Um olho treinado ainda pega uma inconsistência aqui e ali, mas uma hora nem o mais ressabiado vai notar, e aí a conversa muda. Quem confere a informação, quem responde pelo direito de quem foi copiado, quem paga quando esse conteúdo fizer mal a alguém?
Até essa resposta chegar, meu play é pra gente de carne e osso. No podcast de IA a amizade continua de mão única. Só que agora não tem ninguém na outra ponta.