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Casa do Corra
Mercado

Não corta caminho

29 set 2026

Na época da faculdade, eu passava duas horas e meia de ida até a Metodista e mais duas e meia de volta, em dois ônibus: um até São Caetano e outro de lá até São Bernardo. O plano era aproveitar esse tempo pra ler.

No primeiro dia de aula, abri um livro no ônibus e… eita, por que minha cabeça tá rodando? Minha vista tá cheia de pontinho. Como assim eu tô com ânsia? Fudeu. Foi quando descobri que não consigo ler em movimento e que ia passar cinco horas diárias olhando pro teto ou achando graça que a fabricante do veículo tinha o mesmo nome que o meu.

Eu tava naquele ônibus por causa de um sonho de criança. Queria trabalhar com videogame, só que nunca fui de exatas, então programar tava fora. Engine, física, calcular a movimentação de um elemento no eixo Z, nada disso era comigo. Sempre fui da comunicação, de conversar com todo mundo e de escrever. Lendo revistas de games, reparei que aqueles textos tinham autor - um jornalista especializado. E foi assim que bati o martelo do meu futuro profissional.

Esse martelo me trouxe de volta pra São Paulo. Nasci aqui, mas fui pro interior muito cedo, quando minha mãe faleceu. Prestei USP pra jornalismo e não passei. Passei na segunda opção, história (quem que faz faculdade de história, bicho). Só que, com a nota do Enem, fiquei em primeiro em jornalismo na Metodista. O sonho era esse, então fui pra lá e depois a gente via como iria pagar. Muito obrigado, FIES, aliás.

Pra não enlouquecer no transporte público, comprei um MP3 player e comecei a ouvir rádio. Gostava das colunas do Juca Kfouri na CBN, só que elas iam ao ar em um horário que era péssimo pra mim. Paralelamente, os sites de games que acompanhava começaram a lançar uma coisa chamada “podcast”. Um programa em áudio que chegava pelo feed e que eu tocava quando desse na telha, sobre o assunto que mais amava. Aquilo caiu do céu. Ali bati outro martelo profissional: ia ser jornalista de videogame e ia fazer podcast. E fui mesmo.

Hoje dou palestra pra molecada que tá sentada naquele mesmo ônibus, com o sonho na cabeça e sem saber por onde começar. Me perguntam como gravo, como edito. O como tem dezenas de respostas e ficou muito mais fácil. No meu começo, o RSS era montado na mão. Gravar remoto era uma batalha pra conseguir todo mundo conectado ao mesmo tempo, com a voz boa. Mesa de som barata e simples não existia, o que tinha era mesa de som de banda. Ainda bem que mudou.

O porquê dá mais trabalho e é ele que define o caminho. Por que eu quero fazer um podcast, por que quero contar essa história, por que isso importa pra mim, por que vou usar essa ferramenta e não aquela, por que vou entrevistar a pessoa A e não a B. Quando a gente se debruça sobre essas perguntas, entende as próprias prioridades, se tem verba ou não, qual direção tomar. O meu porquê foram aquelas cinco horas de tédio e o videogame. Numa palestra não dá tempo de desenvolver isso com cada um, então sempre deixo a porta aberta. Quem quiser trocar ideia me chama nas redes. Demora, mas eu respondo sempre, porque acho que é papel de quem chegou antes facilitar a vida de quem tá vindo depois.

Outro questionamento que chega muito é “dá pra viver disso?”, e eu sempre digo que dá, mas talvez não do jeito que a pessoa espera. O dinheiro grande tá quando você tem um projeto próprio, e é aí que o negócio fica cruel. Pouca gente estoura. É igual quando todo mundo tinha canal no YouTube, e só uma centena virou gigante. Mercado de música é assim, de livro também. Numa pesquisa que a Associação Brasileira de Podcasters fez com produtores em 2024, só 8,5% diziam tirar a renda inteira do podcast. Quem consegue passou anos fazendo como amador até entender o que tinha de valor pra oferecer pra quem ouve e pra quem assiste.

O mais sadio é ter um trabalho que paga as contas e tocar o programa no tempo livre, até ele render tanto quanto o emprego. Quando o projeto pega tração, dá pra ir tirando prioridade do “day job” e passando pra ele. Até o dia em que você olha pras duas coisas e pensa: “caraca, o que eu faço por amor já rende o mesmo que o trabalho que só paga as contas. Se eu largar esse, será que o outro não cresce ainda mais?”. A gente vive numa sociedade capitalista, e a sobrevivência depende do dinheiro que entra. É uma chave que infelizmente se gira aos poucos.

Pra quem quer trabalhar com podcast de qualquer forma, mesmo que não seja o seu, o projeto pessoal paga em outra moeda enquanto não rende dinheiro propriamente dito. Ele vira portfólio, e hoje ninguém abre porta pra quem não sabe fazer nada. Na época dos meus avós, a pessoa chegava numa empresa, dizia que queria emprego e ouvia “vem cá que eu te ensino”. Ficava cinquenta anos no mesmo lugar, se aposentava e ganhava um relógio, sei lá. Isso não existe mais. Com o seu trampo debaixo do braço, dá pra bater em programa que já tá no ar e perguntar se terceirizam alguma parte. Atualmente, a maioria dessas oportunidades tá no videocast e no desenvolvimento de cortes para as redes, mas não exclusivamente.

E elas podem ser bem específicas. Tem espaço pra quem decide ser o melhor produtor de convidados do mercado, com todos os contatos e os melhores especialistas na agenda, a ponto de o podcast que contratar ter um ator fodido na mesa no dia seguinte. Quem pode dizer que tem isso? Tem espaço pra quem se especializa em roteiro, em efeito sonoro original, em montagem. Com esforço, repetição e um portfólio variado, dá pra se destacar.

Seja qual for a escolha, faz o teu, faz bem feito, se dedica e estuda o que quer fazer. Não corta caminho. A gente aprende muito mais errando. Quem acerta de primeira nem entende direito o que acertou. É comparando o primeiro projeto com o segundo, o terceiro, o décimo, que dá pra ver qual decisão foi certa e qual não foi tão legal.

Mesmo assim, confesso que, se o Caio daquele ônibus me mandasse mensagem em 2008 e eu pudesse magicamente responder com o meu conhecimento atual, ia querer poupar ele de alguns tombos. Além de mandar comprar bitcoin pra caralho e ações da Apple, diria pra abrir a empresa e se especializar em edição bem mais cedo. E pra prestar atenção no que se mexe na comunicação, porque quando a gente domina um ofício, se acomoda, e o mercado te ama num dia e no outro nem lembra teu nome. Por isso é importante se firmar como referência assim que possível.

Mas sei que ele ia tentar ler a resposta, ficar tonto com o balanço do busão e voltar pro podcast.