O que sobra quando o pavilhão desce
Na Febraban Tech não podia ter alto-falante no estande. Imagina os 275 expositores botando som no talo de uma vez, dentro de um pavilhão de 42 mil metros quadrados. Ia virar uma guerra de decibéis e ninguém ia entender nada. A gente tava gravando quatro painéis pra Claro Empresas no palquinho que eles montaram no meio daquilo e a saída foi um QR code. Quem quisesse acompanhar apontava o celular e ouvia a conversa no fone.
Deu certo até demais. No fim do primeiro dia tinha uma roda grande em volta, uns sentados, outros em pé, todo mundo plugado no mesmo papo. O estande da Claro permanecia sempre lotado e boa parte do público estava parado ali por causa de uma conversa que só existia dentro do telefone de cada um.
Aquilo resolvia dez metros. O resto do país ficou de fora, como sempre fica. Por enquanto.
Porque uma empresa gasta uma fortuna pra estar numa feira dessas. Estande, montagem, operação, credencial da equipe inteira em todos os dias. E, na maioria das vezes, esse dinheiro todo compra o contato de quem conseguiu ir até lá e só enquanto o pavilhão estiver de pé.
Você já deve ter passado por isso. Alguém chega de um congresso empolgado com uma palestra incrível, você pede o link pra assistir também e… não tem link. Era coisa de lá. Foi ótimo, quem viveu sabe.
Uma feira grande junta, em três dias, executivos que passam o ano inteiro sem conseguir marcar uma reunião entre si. O que eles falam quando finalmente sentam juntos costuma ser mais interessante do que qualquer material que a empresa produziria sozinha no resto do semestre. E some tudo junto com o carpete.
No caso da Febraban, os painéis irão virar episódios do Próximo Nível, o programa da Claro que a gente assumiu, com estreia prevista pra 9 de setembro de 2026. Um apresentador e três ou quatro convidados em cada, uns 45 minutos de papo sobre inovação e transformação digital no mundo corporativo. Assuntos que interessam ao público de Claro Empresas, que é o segmento que atendemos.
Foi tudo aberto, sem cabine, com um telão atrás dos convidados e o pavilhão inteiro zumbindo do lado. Som captado assim não fica perfeito nunca. O que salva é que o ruído de feira é constante e ruído constante é justamente o que as ferramentas de limpeza resolvem melhor hoje. Elas separam o que é fala do que é fundo, e o resultado sai bom o suficiente pra ninguém reclamar. Só que essa limpeza tem custo. O zumbido sai e leva junto um pedaço do próprio discurso, que é onde a sutileza estava. Num estúdio você captura a voz da pessoa com toda a nuance que ela tem. Essa diferença existe e eu não vou fingir o contrário.
No CONARH do ano passado foi mais confortável, porque a gente gravou com a ESPM e a Pluxee e as duas tinham o seu aquário montado dentro do próprio espaço. Sala fechada no estande, o que resolve quase tudo. Se a empresa quiser fazer isso direito precisa vedar e tratar o som, e aí custa. É difícil que alguém queira gastar mais nisso depois do que já gastou pra estar ali, então a maioria não faz. Em eventos como a CCXP, dá pra ver algumas marcas construindo estúdio de verdade, porque ali elas vão receber ator, nome influente e todo aquele visual do lugar também é parte do produto. Vai de caso pra caso.
Eu não estive na Febraban. Da Maremoto, foi o Gustavo, com a nossa equipe de captação. Entre uma gravação e outra ele circulou pelo pavilhão, e o que ele viu foi estúdio pra todo lado. Aquário montado, executivo dando palestra com câmera apontada, marca capturando material pra jogar no YouTube e no Instagram depois. Estande virou ponto de captura e ninguém combinou nada. Enfim caiu essa ficha no mercado como um todo.
Eu já escrevi aqui que o item mais caro de uma gravação é o convidado que você não pode chamar e evento é o único lugar onde ele já está. O VP que só vem ao Brasil uma vez por ano, a diretoria que jamais teria uma tarde livre, quem senta na mesma mesa que você porque calhou de estar no mesmo prédio. Isso não se marca na agenda, se aproveita quando acontece.
E a matemática fecha rápido pro lado de quem cuida das redes. Três dias de feira rendem tanto material que resolvem mais de um mês de programação. Uma empresa que posta duas vezes por semana sai de lá com o calendário resolvido até quase o fim do trimestre, sem precisar inventar assunto nenhum. O pedido que mais chega da equipe de redes é conteúdo e evento é o momento do ano em que conteúdo bom cai no colo de todo mundo de uma vez.
Colocando na ponta do lápis, é uma fração pequena do que já está sendo gasto. Quem monta um estande dessa escala está investindo alto e por uma fraçãozinha disso tem uma equipe ali todos os dias, roteirizando as conversas, capturando o material e cuidando da agenda pra trazer gente importante pra sentar contigo. Comparado com o custo do metro quadrado no pavilhão, é nota de rodapé.
Dá um trabalho absurdo, é uma canseira só e segue sendo a parte do ofício que eu mais gosto.
Na quarta à noite o pavilhão começa a descer. Em poucas horas o telão e o palquinho viram caixas, e a feira inteira sai de São Paulo em caminhão. Sobra o que foi gravado.
A pauta é o que decide se aquilo sobrevive ao desmonte e ela não pode ser sobre o evento. Imediatismo é assunto de rede social, aquele corte curto do que tá rolando agora no piso que vai pro reels. O programa é outro bicho. Ele precisa continuar de pé quando ninguém mais lembrar que essa edição da feira aconteceu - e isso se decide lá atrás, na hora de escrever as perguntas.
O painel sobre mulheres na liderança não vai envelhecer. Ele vai continuar se desenvolvendo e daqui a um ano vai fazer o mesmo sentido que faz hoje, talvez mais. Se a discussão tivesse sido sobre a marca ou um anúncio feito ali, ia pro depósito junto com o cenário.
Pra acompanhar os episódios não vai precisar de crachá, de QR code, nem de ter passado pelo Anhembi. A roda que se formou em volta do palquinho é a única coisa que não foi pro caminhão.
Se a sua empresa tem feira marcada esse semestre e o plano ainda é só estande, brinde e foto, bora conversar.