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Casa do Corra
Mercado

O estúdio que vai virar sala de reunião

08 set 2026

Já cheguei em empresa que garantiu ter estúdio e encontrei uma sala de reunião vazia. Parede nua, nada pra segurar a reverberação, às vezes não tinha nem espaço pra posicionar as câmeras direito. A gente grava assim quando precisa e o resultado sai. Daquele jeito, mas sai.

Do outro lado tem a sala de verdade, especificada pra fazer conteúdo. A gente grava direto na da Loft e na do QuintoAndar - e já usou também a do Santander, que é um espetáculo. São empresas gigantescas, onde isso já é estratégia faz tempo. Ali a experiência é sempre boa e faz todo sentido eles terem esse espaço à disposição.

Só que a tal “sala de podcast” virou item de planta baixa. Num escritório de arquitetura de São Paulo, 70% do que sai da prancheta já prevê estúdio. Em outro, uma das sócias diz que praticamente todo projeto inclui um ambiente desses, dos mais simples aos que têm mais de um. A obra começa em R$ 20 mil e vai até R$ 1,5 milhão, sem contar equipamento. E um dos sócios abre o jogo numa frase: “quando o cliente não pede, somos nós que apresentamos essa possibilidade”. E ninguém que vai gravar ali dentro entrou nessa conversa.

E não é que esteja sobrando espaço. A vacância de escritório em São Paulo está na mínima de seis anos e banco grande vem chamando funcionário de volta pro presencial, mesmo a sociedade tendo se adaptado muito bem obrigado ao trabalho remoto. O metro quadrado está caro e disputado, e ainda assim se abre mão de uma sala inteira. Isso não é sobra, é prioridade. Alguém olhou a planta e decidiu que ali cabia um estúdio em vez de mais oito mesas.

A lista de quem está construindo diz muito. Conselho de medicina, confederação de lojistas, fundo de pensão, sede de partido político. Tem também a sala que faz mais de uma coisa, como a da Nestlé, um espaço pra umas trinta pessoas que recebe cliente, jornalista e lançamento de produto, e que também grava. Essa passa. A conta fecha porque o metro quadrado trabalha a semana inteira, não uma manhã por mês.

Quase nenhuma dessas salas tem equipamento. A empreiteira entrega o espaço, já câmera, luz e microfone quem leva somos nós. Eu não julgo, porque ninguém larga coisa cara dando sopa num lugar que qualquer um usa. Só que é bom saber disso antes, porque o orçamento da obra é o começo da conta, não o fim.

Estúdio pede mais do que parede e tralha. Pede produção, alguém que cuide da agenda, alguém que controle o vai e vem, alguém que capte. Não é entrar, se resolver sozinho, jogar num cartão de memória e sair com o programa embaixo do braço. Para o produtor amador em casa até que dá, e tem muito trabalho bom saindo daí. Dentro de uma empresa é raro, porque as pessoas de lá são especialistas em outras coisas. É por isso que a gente existe.

Aposto que essa é a última moda da arquitetura corporativa. Antes foi a sala de descanso, depois a de jogos, agora aparecem as cápsulas de inovação, salinhas pra seis pessoas pensarem em inteligência artificial. E prédio demora anos pra subir, escritório demora pra reformar, então a construção chega atrasada numa onda cujo apogeu já passou. A maioria delas vai virar sala de reunião “premium”. Estúdio bem feito é silencioso, climatizado e agradável, o melhor lugar do andar pra conversar. Ou tirar uma soneca.

Vale olhar quem fez o caminho inverso. O Podpah começou em 2020 e passou cinco anos construindo audiência antes de gastar cerca de R$ 9 milhões numa sede de 6.500 metros quadrados. A anterior tinha 560. O galpão veio depois dos milhões de inscritos, não antes. Quem começa pela obra está copiando a foto do final do filme.

Quando a empresa se organiza, no entanto, é inteligentíssimo. A gente ajudou a Pluxee a montar o estúdio deles. Uma gravação a cada quinze dias põe alguém de fora dentro da tua casa vinte e quatro vezes por ano. O convite abre um café, emenda num almoço e termina num “sobe comigo que eu quero te apresentar a fulana”. Você traz a pessoa com a desculpa do podcast e vai integrando ela ao teu ecossistema, e o abraço corporativo dura o resto do dia. E ainda tira o atrito da agenda. A vice-presidente que apresenta o programa desce dois andares em vez de atravessar a cidade.

“Além disso, deve ficar muito mais barato pra empresa, certo?” Depende, mas na maioria das vezes, o custo não cai. Sem equipamento no prédio, a gente leva e em muita situação sai mais salgado que alugar um estúdio simples - só o seguro de cada lente já te derruba da cadeira. O que se compra é comodidade e comodidade é o que sustenta a frequência. Frequência é justamente o que quase todo programa corporativo não tem.

Porque programa é o que morre, não sala. O Castnews Index tem 257.438 podcasts catalogados em português e 9.751 ativos, contando quem publicou alguma coisa nos últimos noventa dias. Menos de quatro em cada cem. E eu acho normal, inclusive. A maior parte de quem produz é amadora, está investindo tempo, conhecimento e horas de trabalho pra fazer o projeto virar, e quando não vira nem se paga, abandona. Eu vivo disso todo dia e o Minha Primeira Vez tá parado, esperando terminar um monte de pendência pra poder voltar.

No corporativo a pressão é outra e às vezes é pior, porque tem gente que quer o programa pra alimentar o ego. Aí a diretoria olha os números seis meses depois e pergunta se todo aquele esforço valeu a pena. Quase sempre o resultado ruim não veio do assunto nem do apresentador, veio de não ter planejamento, não ter frequência, não ter estudo de pauta, não entender o público.

Você não está competindo com o podcast da empresa vizinha. Está brigando com filme, série, jogo, livro, curso e filho. É o tempo da pessoa que está em disputa e ele não aumenta.

Mas a sala nunca foi o que faltava. Quem quer gravar dá um jeito e eu não conheço projeto que tenha sido cancelado por falta de espaço especializado no próprio prédio. O que falta é quem faça. E falta também tratar o episódio como conteúdo central, aquele que se desdobra em corte, em texto, em pauta de comunicação interna e que gera um ecossistema inteiro em vez de um arquivo de quarenta minutos parado numa plataforma. Isso ainda não popularizou porque as empresas acham caro e continuam mandando aquele e-mail que vai direto pra lixeira do colaborador.

Então, em vez de gastar rios de dinheiro subindo um estúdio do chão, que tal pensar em usar uma porcentagem dessa grana para desenhar a maneira com que o podcast entra na sua estratégia anual de conteúdo?